sábado, 23 de maio de 2009

O aperreio do vereador Renaldo Lima


Quando vereador em outra legislatura, Renaldo Lima, entrava na Câmara calado e saía mudo. O infeliz pegou logo uma época em que se elegeram vereadores metidos a atuantes. De um lado da bancada, Augusto Martins e do outro Hamilton Marques. Era farpas pra todo lado e o Limão no meio assistindo a um espetáculo, cujas cenas se restringiam aos citados protagonistas.

Um fazia que defendia o povo, ou melhor, o governo, ôpa, o próprio interesse, e o outro fazia que defendia a bancada de oposição. Naquele tempo a Câmara Municipal era casa cheia. O povo fazia questão de comparecer as sessões, afinal tinha Zé Ioni, Renaldo Lima e Ana Maria Santos que não tinha papa na língua e descia a madeira com força em todo mundo.

Mas o tempo passa e as pessoas mudam... Um dia desses perguntei a própria Ana Maria por que mudou da água pro vinho. Ela respondeu que não tem explicação. Aconteceu naturalmente da noite pro dia. Para alguns, a danada perdeu muito em ter se calado. Prova disso é que nunca mais voltou a Casa Monsenhor Arruda Câmara. Mas deixa pra lá, Ana está melhor do que nunca!

Numa sessão daquelas em que o clima estava pra lá de quente, Renaldo Lima estava mais assustado do que um sibito baleado numa gaiola e um peste de um gato querendo rapá-lo no bucho. Os ói do bixiguento estavam em tempo de estourar. A tremedeira tomava conta do pós-comunista, afinal Limão estava no PPS de Augusto Martins. Imagine uma dupla caceteira dessa no Legislativo.

Antes o nosso vice tinha atitude para arrebentar a boca do balão e exerceu muito bem sua função na defesa dos interesses do povo. Foi um dos mais atuantes parlamentares da história política de Afogados da Ingazeira. Não sei por que mudou a postura de uma forma tão radical. Na verdade não sabemos o que aconteceu com Martins. Mas vamos ao que interessa. Que danado eu tenho haver com a vida do nosso amigo?

Durante o pronunciamento de Hamilton Marques a madeira cantou nos lombos da bancada liderada por Martins. Nem bem terminava as palavras do Hamilton e o ex-apresentador do programa “Papo Legal” já tava lá retrucando a altura, pois, conhecemos a inteligência do Fonseca. Renaldo Lima tremia mais do que vara verde e torcia que o Presidente da Casa não lhe concedesse palavra. Mas foi tudo em vão. De repente Erickson Torres, soltou no microfone: - Eu passo a palavra ao vereador Renaldo Lima. Isso sem o mardito pedir.

Num momento inusitado naquele Poder Legislativo, o Limão ficou da cor de um capucho de aigodão como diz o matuto. Olhou para a bancada de situação, olhou para o público presente, bateu no microfone com o bico dos dedos secos que parecem mais um esqueleto e testou: - Alô som, alô som, alô som, alô som, teste, teste, teste, teste, alô som, alô som, alô som e quase que não pára com esta história de alô som. O pior é que deu um branco em Limão e coitado travou como jumento ruim que deita no chão e dar a peste pra sair do canto. Nem um ferrão quente tirava Renaldo do prego naquele momento.

Aí o Presidente da Casa Erickson Torres falou do outro lado: - O nobre vereador quer trocar de microfone?

Assustado qui nem um viado com medo de um leão, Lima respondeu: - Eu agradeço excelência, mas passo o meu tempo de falar para o líder da bancada Augusto Martins.

Assim que concluiu as palavras o Limão tava tão nervoso que deixou o microfone cair. O amassão foi tão grande no dito cujo que este não serviu para nada depois do tal pronunciamento. A cabeça do mangote ficou infincada no chão. Parecia até que o magrelo tava com uma brasa na mão. Todo público presente na Câmara, inclusive os pares do Limão caiu na risada.

domingo, 17 de maio de 2009

Quem é o pai da criança?

Por Gilberto Moura

Dona Isaura foi batizar a filhinha de um ano e frei Alberto começou o interrogatório:
-Nome?
-Ambrosina.
-Nome da mãe?-
A Isaura que vos fala.
-Pai?- ....
-Ou diz o nome do pai, ou não batizo.
-Seu frei, já que o senhor insiste, lá vai: Frei Cirilo.
-Ôxente, e Frei Cirilo tirou a batina?!
-Não. Segurou com os dentes.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

O Processo do diabo

Escrito por Luis Campos

Isso de que o “diabo” teria sido processado em Flores, faz parte inerente, já da tradição histórica da velha cidade. A noticia , sem qualquer prova autentica, veio sendo transmitida de geração em geração, ao longo dos séculos XIX e XX e renomados historiadores tratam dela. Assim como o ímã ao ferro e o aroma à flor, ligou-se o “processo do diabo” à memória de Flores a tal ponto que não se pode falar de uma sem se referir a outro. O assunto, sem ser lenda, não pode, todavia, freqüentar os salões nobres da história.

Permanece nas antecâmaras da mera tradição histórica da terra. Os autos processos não existem em Flores, não se tem provas de que tenha mesmo existido e nem informações seguras onde estejam. Como nódoa de azeite parece tudo haver começado nos meados do século XIX, quando atuavam na política florense o Ten.- Cel. Nogueira da Paz (liberal) e o Major Manuel Pereira (conservador). Uma versão (Dr. Edilton Santana) fala que uma negra forra, ex-escrava de Manuel Pereira, teria sido encontrada morta, pendurada numa árvore, nos arredores da Vila.

A negra dizia-se fora dada ás prática de bruxarias, habilidades que trouxera da África. A autoridade Policial fez instaurar sindicância para esclarecer o fato. E cada pergunta sua, respondiam os informantes, por uma só voz, que a morte da vítima se dera por “artes do demo, artes do tinhoso”. Outra versão (Dona Maria Stella de Siqueira Campos) dá conta de que o corpo de um homem fora encontrado nas proximidades da Villa, também pendurado por uma corda, no galho de uma árvore.

O assassino não deixara pista. Suspeitos não havia. Tomada as providências policias, instaurado o inquérito, foram ouvidos os vizinhos mais próximos. O processo foi remetido ao juiz do crime. Todas as testemunhas, entretanto, respondiam ao magistrado que a vítima não tinha inimigos. A cada pergunta do juiz, uma resposta evasiva. Ninguém sabia de nada. E quando o juiz perguntava de frente, sobre a autoria do crime, cada testemunha respondia: “só se foi o diabo, Doutor!” E o juiz, certamente convencido do mistério que envolvia o crime, decidiu da o processo uma solução esquisita: condenou o “diabo”, nas penas da lei.

E Flores voltou á sua rotina. Acrescenta Dª Maria Stella, que em 30 de dezembro de 1916, quando o governador Manuel Borba visitou Flores, teria solicitado ao Escrivão do Segundo Cartório, Ladislau Nunes de Souza Barros, que lhe mostrasse a curiosa peça jurídica, tendo sido satisfeita a sua curiosidade. Anos mais tarde, soube-se que o processo havia sido remetido para o Rio de Janeiro, mas disso não ficaria recibo. As filhas do escrivão Ladislau, confirmaram a ocorrência, mas, sem algum museu. Outro boato surgiu de que ele estivesse na Bahia. Enfim, o “processo do diabo”, em Flores, como lá dizia o sertanejo, só sendo coisa do “fute”!

terça-feira, 12 de maio de 2009

Zé Fidélis e a fossa de Moacir Queiroz

Cidade pequena é a peste pra viver de gambiarra, feito casa de gente pobre naqueles morros no Rio de Janeiro, construídas de tábuas de embalagens de bacalhau. Os casebres fedem mais do que aquelas fateiras que passam trinta dias sem lavar o cedém.

Mas esquece o Rio de Janeiro que aqui também tem casa de taipa que só a gota serena! O tal do bicudo vadeia nas costas das veias quando vão drumi após umas tragadas gostosas num cachimbo rústico e mal lapidado; geralmente comprado em bancos de feira.

Certa feita Zé Wilson do Gelinho foi contratado para limpar uma fossa de Moacir Queiroz Leite, comerciante bastante conhecido na cidade. Se fosse numa cidade grande, o trabalho seria executado por um motorista, dois técnicos de maquinário, profissionais desentupidores, vestidos de forma padronizada, usando macacões, luvas, botas, e tudo mais...

Como aqui tudo é no jeitinho brasileiro, os caras limpam fossas descalços, nus da barriga pra cima e sem nenhuma proteção, desgotam tanques que retêm bostas, recebem esgotos, dejetos, águas servidas e mijo de toda cor, verde, amarelo, cinza e pingado... Ah, mais para eles é uma baita festa. Cada um é feliz com o que tem. Tem gente que mesmo tendo, vive numa tristeza infernal dando coice em todo mundo. É uma infelicidade!

Quando destampou a lage da dita cuja, Gelinho levou logo um supapo no pau da venta que quase caiu de costas com o fedor de bosta do ricaço da época. Logo merda de rico fede mais do que a de pobre, não sei se é porque eles só comem besteira, ou o intestino não trabalha bem como os dos pobres. Menino novinho de roça come até besouro rola bosta e não tem uma dor de barriga, mas menino de rico se levar um pingo de chuva, minha nossa, fica resfriado. Ô frescura!

Dois companheiros auxiliavam Zé Wilson na triste tarefa, Gil Gomes e Zé Fidélis, do Bairro São Brás, o primeiro já falecido, o segundo irmão do finado Nenê Grude, um grande admirador do ex-deputado Antonio Mariano. Gil Gomes timbugou na merda e ficou dentro da fossa enchendo as latas e entregando a Zé Fidélis na parde de cima. Gelinho apenas coordenava os trabalhos e se resguardou a tomar todas, melou o bico, mas bem devagar. Já os seus ajudantes se excederam na branquinha e ficaram chapados. Na vigésima lata de bosta, Zé Fidélis não fazia mais um quatro e começou ficar pra lá e pra cá na beira da fossa, parecia vara de bambu.

Gil Gomes também baleado pela Pitu já tava com a cara toda coberta de merda. Enquanto descascava uns cocos Zé Wilson se descuidou dos ajudantes e entertido no vai e vem da faca, ouviu aquela coisa borbulhando e correu assustado pra ver. Meu amigo, quando chegou à fossa, notou que Zé Fidélis tinha caído de cabeça e tava com os pés pra cima, plantando bananeira, e Gil Gomes estava boiando de focinho pra baixo.

Gelinho se aperreou pulou na piscina e salvou os dois sujeitos que estava com o rabo cheio de cachaça. Pra terminar a história deitou os camaradas no chão de papo pra cima e quando apertou na barriga de Fidélis subiu uma goipada de merda que foi bater na cara da empregada que estava ao lado rindo dos pé inchados. Depois de algumas horas eles retornaram, mas estavam com merda até nos ói. E o pior é que a bicha secou e deu um trabalho desgramado pra tirar. O cabelo de Zé Fidélis ficou mais duro do que o de Dedeu Bola cheia e do pintor Zé Rolinha. Quando ia saindo da casa Gil Gomes foi cobrar o serviço a Zé Wilson aí Zé Fidélis gritou:

- Eita fedor de merda da porra Gil Gomes fecha essa matraca!

Aí Gelinho retrucou:

- cala a boca Fidélis a tua tá fedendo mais do que a dele.

Fidélis que de besta na tem nada, cobrou de Geladinho:

- Então leve a gente lá em Chico Cotó enfermeiro pra ele fazer uma lavagem no estombo da gente!

Esta história é verídica. Zé Wilson do Geladinho já não está mais entre a gente mais deixa esta lembrança para os leitores do Causos & Contos.

A descoberta do voto de Agnaldo Silva

Escrita por Marenice Oliveira

Como aqui quem manda é o freguês, tome mais um causo escrito e enviado pela minha amiga Marenice Oliveira. Ela é promotora de eventos na região e adora contar causos.

Aguinaldo Silva figura que apresenta todos os sábados o Programa Sábado Livre foi pego de surpresa durante uma entrevista na Rádio Pajeú quando se falava sobre a eleição do Grêmio Estudantil da Escola Padre Carlos Cotat.

Num é que o danado se comprometeu com os dois candidatos que disputavam à direção do Grêmio Estudantil?

Durante a entrevista o radialista Nill Júnior disse no ar:

- afinal você prometeu voto aos dois candidatos Agnaldo?

Ele disse com a maior naturalidade:

- foi Nill, a gente tem que agradar a todos eles, no final nem um nem outro ficou chateado comigo.

Então falei, mas se isso cai na boca de Itamar França vai para o Causos & Contos dele.

Ele ficou tão apreensivo que perguntou:

- será Marenice que isso vai parar no blog do itamar? Será que Nil Júnior quis dizer que sou traíra e ele mesmo ria com essa história toda?

Mas ele garante que não, porque não teve como falar já que o programa estava acabando. Agnaldo disse que tem personalidade e duvida fazer assim na política.

"LATINORIUM"

Não faz muito tempo o Latim era disciplina obrigatória no ginásio, com aperfeiçoamento para aqueles que seguiam o curso Clássico. Aprendiam todos a declinar a “rosa” e o “qui, quae, quod”. Os mais espertos acompanhavam César na travessia do Rubicão ou chegavam a declamar as catilinárias de Cícero.

No vestibular de Direito, o latim era eliminatório. E muito se exigia, como ainda se faz preciso, no estudo do Direito Romano.
Hoje é língua morta. Talvez a usem os padres na leitura do breviário ou nas visitas a Roma. Não mais em missas, batizados ou qualquer outro ato litúrgico.

Apesar disso, e mesmo sem que ninguém o estude, o Latim continua vivo e de largo uso na linguagem forense, tanto a falada quando a escrita. Sabem-no de ouvido ou por erudita leitura já os estudantes, capricham nele os aplicados estagiários e fartam-se de usá-lo os causídicos militantes, assim como os jurisconsultos e magistrados, abrilhantando seus arrazoados ou decisórios.

Acontece que, por incúria ou natural desconhecimento, cometem-se certas barbaridades no uso da língua. Algumas vezes passam desapercebidas, ou até se disseminam como expressões de alto louvor. Por exemplo, é bastante usada a expressão “data vênia”, em sinal de respeitosa discordância. Mas há quem não se contente, e prefira o superlativo “datíssima vênia”, em inadmissível aportuguesamento do tempo verbal.

Não poucas vezes ocorre confusão do tradutor. Como no caso do recém - formado que, açodadamente, trocou uma petição de “Habeas Corpus” por “Corpus Christi”. Pior ainda a referência ao célebre conclamo de César – “alea jacta est”, que uma famosa causídica afogadense entendeu como “o alho está no jacá” (“sic”).
Mais curiosa e engraçada a inicial de inventários narrando que o “de cujus” deixou uma decuja e dois decujinhos... Se era latinista, o autor da herança deve ter se revirado no túmulo.

Há quem se ofenda, por estranhar os termos da citação. Assim, no colégio ouve o aluno: “Mater tua mala burra est”. De pronto, rebate: “É a sua!”, quando na verdade apenas se disse: “Tua mãe come maças estragadas”.

Muito feio quando se erra na pronúncia. E o risco é grande em face da invasão do inglês. Em sustentação oral, pedindo o adiamento da audiência por estarem as partes em vias de composição, frisou o peticionário que a prorrogação temporal haveria de ser “saine daie”(“sine die”) .

Fato real, bem pitoresco, deu-se na sala de audiência de uma Vara Criminal curitibana. Era um caso de lesão corporal simples, sem testemunhas de acusação, a vítima desaparecida. Como o réu alegará legítima defesa, certamente seria absolvido. Apesar disso o defensor fez questão de ouvir suas três testemunhas. Aconteceu que a terceira, para surpresa geral, disse que tinha presenciado a briga.

E desatou a falar, contando que o réu havia provocado e perseguido a vítima, sem razão plausível, aplicando-lhe imerecido pontapé no traseiro. Então o promotor, comentando a situação desfavorável ao réu, ocasionada pela sua própria defesa, fez uma observação jocosa: “Pois é, dizem que “quod abundat non nocet”(o que abunda não prejudica), mas desta vez o “abundat” prejudicou!”. O advogado entendeu mal a última expressão e lançou indignado protesto ao meritíssimo juiz, em defesa de seu cliente e da própria moralidade da Justiça!

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Nêgo Daniel e o Circo do He Man em Carnaíba


O amigo Darésio fez uma observação muito oportuna em relação ao blog Causos & Contos. Segundo ele os textos estão demasiadamente cumpridos, o que na maioria das vezes desestimula a leitura. Como aqui quem manda é o freguês nós vamos a partir deste momento procurar ser mais objetivo.

No final dos anos 90 passou em Carnaíba um circo que tinha como principal atração um homem branco, de cabelos cumpridos, apelidado de He Man. Desde que me entendi de gente, nunca vi uma criatura tão forte. Interessante é que ele fazia a abertura de seus árduos trabalhos com um agradecimento ao Deus de Davi, de Jacó e de José. O público ficava boquiaberto com tamanha fé.

A cada dia o espetáculo do pequeno circo era mais atraente aos olhos dos espectadores, isso porque He Man enfrentava vinte homens sozinho e botava todos pra correr a socos e pernadas. Até velho de 80 anos em cadeira de roda ia assistir o lutador descer a lenha em seus obstinados desafiantes. Foi o maior sucesso a passagem do personagem no Sertão do Pajeú.

Durante manhã e tarde o carro de som anunciava pelas ruas de Carnaíba, mais um espetáculo e claro a grande atração da noite. Ao som do microfone de um Opala azul, diga-se de passagem, velho e caindo os tacos, um magricelo de cabelo encaracolado anunciava:
-Não perca logo mais à noite mais um espetáculo do Circo Transamérica. Hoje a cobra vai fumar com a turma do Nêgo Daniel enfrentando o He Man. A madeira vai deitar com a galera do alto Santa Luzia!

Eu estava de serviço próximo ao Banco do Brasil, mesmo no auge do famoso mosquetão, o chamado pau de ferro dos policiais militares, hoje resta somente à lembrança dos coitados, encontrados apenas em museus. O carro rodou o dia inteiro e não deu sossego a população anunciando o Nêgo Daniel como principal desafiante de He Man. Passei a tarde toda imaginando que o desafiante seria um homem robusto, moreno, malhado e acima de tudo caceteiro nas pegadas.

Ah, mais isso estava na imaginação de muita gente. Quando a rumbeira balançou o esqueleto pra galera dar uma salva de vaias, as arquibancadas já estavam repletas, sem espaço nem para Darésio dar um pêido daqueles... O vendedor de pipocas, algodão doce e daquelas maçãs avermelhadas cobertas de mel por cima já tinham enchido o tolé. Não sobrou nenhuma pra contar a história. Eita He Man de um cartaz da bexiga! Parecia Didi da Felicidade quando estava em seus dias de glória. Quando o ex-prefeito contava sua história de vida uma multidão chorava emocionada. Com o tempo veio Anchieta e deu um ultimato no drama.

Mas deixa pra lá que o homem está voltando com a febre tife nos couros e disse que aí de quem enfrentá-lo. O Patriota afirmou que faz seu sucessor folgadamente. Mas Lisboa com sua sapiência contesta... Quando o locutor anunciou a entrada de He Man no ringue, foi aplauso feito à peste, os velhos ficaram inquietos e correram pra frente no intuito de ver a fera de perto. Só que a fera que eles queriam ver era o Nêgo Daniel, propagado nos carros de som durante o dia todo. O apresentador conferiu as cordas do ringue, e quando convidou o negão para o centro do ringue, eu que estava distraído só ouvi as vaias. Os assobios tomaram conta do espaço e confesso que fiquei môco, môco, môco.

O Nêgo Daniel havia subido no ringue. O miserável parecia um grilo falante. Coxo de uma perna, cabelo encaracolado, cambito fino, tatuagens pelos ossos e com estampa de sibito o danado ganhou vaia e assobios feitos à peste. O desgraçado entrou com um cigarro no bico, parecia o cão chupando manga. Quando He Man botou os pés nas tábuas, ou melhor, as pranchas, o ringue balançou feito geléia. Os demais desafiantes também subiram e foi dado o início da luta. Na primeira tacada que tomou no pé das orelhas, Nêgo Daniel quase voou por cima do ringue. Procurou terra nos pés e não encontrou. Correu pra um lado, correu pra outro e He Man atrás, o povo ria a bersa, mas o negão coitado tava assustado feito gato com medo de leão dentro de jaula de circo.

Naquele meio, Nêgo Daniel inventou de emburacar nas brechas para correr, mas os próprios comparsas fecharam os cantos da corda impedindo a fuga dele que era o “cabeça” da turma do Alto. Quando descuidaram um pouquinho ele passou numa brecha a mais de mil com as costas vermelha ardendo que só pimenta malagueta na boca de menino novo. A maloqueirada que ficou para enfrentar o He man abriu dos paus e em menos de dois minutos o espetáculo havia terminado. Só sobrou pra polícia porque a mundiça partiu atrás do dono do circo com a gota serena querendo a devolução do dinheiro. Só se ouvias as ameaças:

-Aquele Nêgo safado vai me pagar, se eu pegá-lo a pisa que vou dar nele vai ser maior do que a do He Man. Quero meu dinheiro de volta, vim ao circo para ver briga e não atleta de cem metros. Se aquele infeliz me aparecer vou quebrá-lo todonho. No outro dia Nêgo Daniel estava no circo com uma chupeta do cão na boca e soltando fumaça na cara dos bestas. Ninguém disse nada com o mardito. Anos depois, Daniel se suicidou. Passou a corda no pescoço e quando o acharam já estava morto. No seu enterro tinha apenas três pessoas. O caixão quase não chega ao Cemitério de Carnaíba. Registrou-se na história da terra da poesia como o enterro que compareceu o menor número de pessoas até os dias de hoje.

HISTÓRIAS DE UMA ÍNDIA PANKARARU

Por Gilberto Moura

Dos muitos irmãos que tenho, apenas eu, o mais velho e mais andejo teve oportunidade de conviver mais de perto, ainda que por breve tempo,com nossa avó paterna. Antonia Maria da Conceição era índia pankararu da região de Petrolandia, Tacaratu, Jatobá, Caraibeiras, onde hoje se localiza a reserva daquela nação.

Era índia mas não era indolente, tinha uma inquietude que a mantinha sempre ativa, seja na atividade de rendeira de bilros, seja na roça ou na pesca. Naquela época o São Francisco não tinha esse horror de barragens a tolher o caminho dos peixes e das enchentes.

Quando criança, e eu já fui criança, uma ou duas vezes visitei minha avó india em Petrolândia e também a aldeia, onde "Mãe Tonha", como os netos a chamavam, plantava amendoim para fazer paçocas e pés-de-moleque que vendiam nos bodegas da região. Uma dessas visitas coincidiu com a época de plantação do amendoin e quando Mãe Tonha foi plantar seu roçado me levou junto.

Na passagem pelo terreiro da aldeia, nos acompanhou uns quatro ou cinco curumins. Chegando na roça, Mãe Tonha organizou a tarefa: Ela iria na frente abrindo as covas e eu mais os outros meninos, os curumins, iriamos atrás deitando as sementes, fechando as covas e assobiando.
Sim, assobiando!

Segundo minha avó, o amendoin que é plantado ao som de assobios de crianças dá boa safra em qualidade e quantidade já o que é plantado em silêncio não prospera, não desenvolve.
E assim foi, a índia na frente com o enxadeco abrindo as covas e a molecada atrás, caraíba e curumins, assobiando, jogando semente e fechando as covas. De vez em quando Mãe Tonha ralhava:

Vamos assobiar gente!

Não pode parar de jeito nenhum!

Todo mundo assobiando!

Quando terminamos estava todo mundo sem fôlego de tanto assobio. Passaram-se os anos e sempre que eu via amendoim sempre me lembrava da forma correta, segundo minha avó índia, de plantar tal lavoura. Somente no final de sua vida, já beirando os 90 anos é que a india velha me contou o verdadeiro segredo do amendoim. A conversa deu-se em Petrolina onde ela passava uns tempos com minha tia Maria Limeira. Perguntou Mãe Tonha:
- Tu lembra da roça de amendoim em Tacaratu
Respondi:
- Claro que lembro, ajudei a plantar uma vez, assobiando até ficar sem bico!
E emendei:
- Assobiar plantando amendoim garante boa safra mesmo? Tem fundamento isso?
Ela respondeu já sem conter o ar de gozação:
- Se tem "afundamento" não "seio" mas que os "menino" não "come" as "semente", não "come"!

Fiquei sem ação, a história do assobio era para que ninguém comesse as sementes de amendoim, aqueles grãos enormes, que mesmo crus são deliciosos. Deve haver alguma relação com o tal ditado que fala de assobiar e chupar cana.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

O dia que chegou telefonia móvel em Carnaíba

Depois do causo de Carlos Ribeiro que movimentou a cidade de Carnaíba em meado dos anos 90, agora a terra da música volta a esta telinha. A cidade cresceu bastante, transmitindo alegria e receptividade aos visitantes. Estou há mais de 15 anos fazendo parte do efetivo daquele Destacamento de Polícia e por isso faço parte do dia-a-dia daquele município. Lá tem figuras folclóricas, Mita do Rádio, Taioba, César Campos, Imperador, Lurita Professora, etc.

A terra do Dantas viveu um dia movimentado da molesta dos cachorros na última sexta-feira, dia 1º de maio. Foi um corre-corre infeliz, ou melhor, feliz. Arriégua parecia que o mundo ia acabar naquela data. Chega me dar arrepio só em pensar no final dos tempos, imagine um pecador como eu, cheio de causos e contos, um falador da vida alheia, diante do Senhor. Mas ele sabe do nosso coração e acredito piamente na salvação, porque a bíblia diz claramente que basta se arrepender e invocar o nome do Todo Poderoso. Oh Senhor Jesus! O que é que há hem? Que mente mais poluída!

Retornei de férias no dia do trabalho. Fui escalado na Cadeia Pública e depois de trinta dias num mundo de extrema alegria, veio o inevitável tédio... Do estabelecimento prisional, ouviam-se fogos e mais fogos, gritos e mais gritos, e um tráfego de veículos nunca visto antes. Fiquei por algumas horas na parte externa esperando alguma pessoa passar no local para perguntar o que estava ocorrendo. A curiosidade era tamanha que liguei para o Destacamento a fim de saber o que danado tava acontecendo nas ruas, devido à barulheira. Eita coisa ruim é o cabra ser curioso e gostar de saber das coisas, sem ter alguém para informar. Mas são ossos do ofício!

Durante a manhã e à tarde não tive um pingo de sossego. Cabra besta não, respeite os homi! Se não quiser ler desligue o computador. Ah, eu não tenho nada haver com seu baixo astral, você que plantou, colha. Ainda pula um grilo falante desse para atrapalhar. Quem te chamou aqui mardito? Não liga, é um enxerido que está de fora do negócio dando pitaco, parece mais aqueles pirus de mesa de jogo que fica com a boca torta mostrando o jogo para o amigo, “é essa outra carta rapaz”, ô ventríloquo desgraçado, mais isso é o que mais tem nos pés de quem está no poder. Prefeito é a peste pra ter esses tristes no pé. A boca chega vive cheia de prega, pé de galinha, feito a gota serena de tanto o infeliz torcer para fuxicar. Ah, infeliz da costa oca!

A viatura tomou um chá de sumiço realizando rondas na cidade, diga-se de passagem que a locada não tem rádio de comunicação, ou seja, os gatos de botas têm que adivinhar o local da ocorrência, ou antonsse passar em frente ao Destacamento de cinco em cinco minutos, o Dudu tá queimado que só a peste na corporação. Ele deu notebook para os professores e a gente nadicas de nada. Bem que eu preciso de um bicho desses mais cadê o dinheiro... Quem sabe alguém um dia me presentei. Fica na tua rapaz, alguém sim, ou você acha que eu não tenho amizades! Mas vamos ao que interessa que Dudu tem que se preocupar em tirar Jarbas do caminho porque se não o tiro vai sair pela culatra. Por falar nisso o senador disse no programa Frente a Frente do Magno que gosta de mulher e de fazer um bom cuzido. Mas deixa a vida do cabeça branca pra lá.

Na madrugada quem disse que dormi? Fiquei somente escutando a doidera na cidade, era som de apito de menino, fogos de toda espécie, buzinas rua acima, rua abaixo, e da Cadeia escutei a macacada gritando, chegou, chegou, e foi doutor Anchieta que trouxe! Pensei comigo mesmo, acho que é o presidente Lula ou o Papa que está lá em baixo, esses danados nem me avisaram. As calçadas estavam tomadas de gente, teve delas que colocou até o som pra tocar, parecendo o dia 31 quando vai se romper o ano. A essas alturas um soldado, desses sem malícia (bizonho) já havia passado a notícia pra toda sorte de gente que ele conhecia. Na escuridão da Cadeia, no cantar dos grilos e no ronco estrondoso do soldado Almeida, eu aguardava ansioso o barulho do motor de um carro, no objetivo de atravessar no meio e perguntar o que febre tife tava acontecendo na cidade.

Como demorou muito, acordei o praça e fiz finca pra rua numa carreira desgramada em minha jumentinha cor vermelha, ano 98. É da tua conta se a bichinha é surrada? Mas serve, pelo menos não pego carona nos carros de lotação e outros particulares. Meu amigo, minha amiga, como dizem os pastores da Igreja Universal, quando cheguei ao centro da cidade, pensei que era “noite de ano”, com tanta gente. A viatura ia numa carreira do cão com destino a uma ocorrência, quando Zezinha Brás deu um grito da gota serena acenando com a mão. O sordado que estava no volante deu um freio que o rastro dos quatro pneus furaram o calçamento. Aí o cabo Bié assustado perguntou:

- O que foi que aconteceu? Estamos pronto para, em condições de!

Aí foi quando Zezinha falou em tom de alegria e descontração:

- O sinal da Tim já está funcionando menino!!! Já pensasse numa coisa desta, parece fim de mundo mesmo!

Minutos após encontrei a viatura e perguntei aos colegas, rapaz desci numa carreira medonha para saber o que está acontecendo em carnaíba em virtude da movimentação. Aí o Nego Bié falou de dentro do carro:

- Relaxa, num é nada não foi só a inauguração da instalação da antena de telefonia móvel, é porque aqui ainda não chegou coca-cola, e o povo ainda tem aquela cultura de esperar o telefone tocar três vezes para atender, se não num presta!

Nisso voltei a Cadeia Pública de carnaíba para ocupar minha função, vigiar os detentos até as 08h da manhã. Se toda cidade que instalasse esse sistema de telefonia fizesse uma festa do tamanho da que fora feita em Carnaíba, Já sei que ia ser o estopim calango mermo!

quinta-feira, 30 de abril de 2009

O pêido de Darésio na Boate Marquise


Darésio Aristeu é um sujeito bastante conhecido em Afogados da Ingazeira. Jogou nas melhores equipes de futebol da cidade e passou até pelo Socremo, time profissional da cidade de Monteiro na Paraíba. É filho da finada Dora Pixilinga e o seu pai é um dentista velho aposentado lá das bandas de Feira de Santana, no estado da Banhia.

A boate Marquise em meados dos anos 80 foi um verdadeiro sucesso. À noite era casa cheia e entupida, como bucho de menino pobre de periferia quando vê um prato de feijão com farinha e uma colher de óleo de soja por cima. Nas tardes, a minineira como diz Marconi Edson, fazia finca todos cheirando que só a peste, logo a colônia alfazema tava num sucesso da gota serena. Inté as fateiras arrasavam com a verdinha, depois de tratar meio mundo de fato, tomar um banho e derramá-la no corpo.

As gatinhas usavam uma colônia chamada Patchouli; a bicha tinha um cheiro doce que enjoava, não sei como as tristes agüentavam. Lembro que os rapazotes colocavam um litro de coca-cola na mesa e ficavam num rebolado arretado. Darésio ajudava Dionísio da Budega, pai de Alexandre do Celular e de Júnior Prugema. Era um xêlepa desgraçado do homem mais careiro da época. Ah, mas Dionísio gostava dele, mandava buscar água, almoço, café e depositar dinheiro em banco.

Até um gato preto pulguento Darésio dava banho na budega a mando de Dionísio. Pequinha gostava logo o bicho era preguiçoso que só radialista ruim, tipo: me deixa quieto pra num arrumá pobrema como diz Zé Negão e Gonzaga Ferreira. O infeliz trabalhava a semana toda na budega e ainda lavava o carro para o Menundo Alexandre desfilar na rua com um frasco de Cepacol dando injetada a toda hora para resfriar a boca contra o indesejável que atingia as narinas dos filezinhos. Mas compensava porque no sábado à tarde Darésio recebia a mixaria do velho, agora imagine quanto era? O sufiente para comprar 15 chicletes e cinco cajuína. Por isso que o infeliz arrancou logo os dentes. Foi com Dr. Aluísio Arruda. O consultório ficava onde hoje funcina o Zero Grau de Nei Quidute.

Como eu não tinha filé e era liso que bucho de traíra, freqüentava o Bar da Facada, no beco do Mercado Público, o conhecido Bar de Fanfa, que por sinal bateu as botas depois de ter enfrentado um cirrose. Era cada bagaceira no Bar de Fanfa. As negas pareciam acidente de trem e só tomavam Pitu com peixe ou preá torrado num óleo preto da bexiga.

Mas que contador de contos sou eu, que boto até os finados pelo meio? Safadeza rapaz, fica na tua! Seja o que tiver pensando é da tua conta? Aguarde um pouco, peça um minutinho e diga a esse fela que tenha paciência que a estória tá chegando ao final. O cabra vem atazanar mesmo agora. Se for as moriçocas nas pernas, dane um ventilador, se não tiver prestando leve na oficina de João Batista, lá conserta até bola de couro, do jeito que o danado gosta de dinheiro. Assim dizia Martinho Souto que botou ele no ramo.

Eita cabra falador miserável. Mas o nosso assunto é outro, vamos pra trás que na frente tem gente, quer mudar o texto? Então mude homi! Ora, o cabra num ganha nada e ainda é obrigado a receber críticas. Teve uma infeliz de uma leitora que botou no mural aí ao lado que quando leu o texto deu náuseas. Mas eu compreendo...

Em uma noite daquelas Darésio tomou um banho demorado, passou creme pelo corpo, derramou quase um frasco de Piment na cara, escovou a chapa, que o danado não tinha mais os dentes naturais e se danou pra marquise. Chegando lá pediu uma cerveja, e ficou no canto da mesa aguardando dar uma fitada numa garota daquelas que estavam remexendo o esqueleto no salão ao som do “meu ursinho blau blau de brinquedo”. De repente conversou com uma delas e no horário das músicas lentas a convidou para dançar. Bem coladinho, Darésio foi amaciando e deu-lhe uma beiçada. Com uma pastilha Halls na boca o desenrolado conseguiu enganá-la. Poucos minutos depois veio uma vontade triste de dar um pêido. Sustentou a barriga, fez força, torceu o calcanhar e não deixou o mardito sair.

Novamente a barriga pressionou mas ele controlou. O suor frio chega molhou o fucinho. A gatinha até o indagou porque estava suando, mas ele alegou o calor. Fez força, se remexeu até o pescoço e conseguiu manter o furico fechado. Ele me falou que pensou: - mas rapaz logo agora? De nada adiantou tentar fugir das tripas gaiteras. Na segunda música, quando ele pensava que estava bem, até curtia o som cantando baixinho no ouvido da dita cuja: “Meu mel não diga adeus, eu tenho tanto medo”, aí meu amigo ele não mais agüentou e deixou o pêido sair devagarinho, como quem tá comendo um corró torrado cheio de espinha.

Ele se espremeu de um lado pra ver se retia o cherinho de bebê que havia sido evaporado do furico, se espremeu do outro, mas a gatinha começou a sentir pela gola da camisa. O peido entrou de blusa a dentro e saiu quente que só água de pelar porco. A garota tentou se afastar do aloprado, mas ele deu uma gravata na coitada quem nem trinta homens separava. Tinha uma turma dançando próximo, correu e a infiteta da bufa ficou rodando no local. A essa altura sem ter mais alternativa, Darésio falou no ouvido da menina:

- Tais sentindo o mal cheiro, parece que bufaram?

Aí a menina revoltada falou: - é mesmo e bufaram agora na minha cara com outro odor diferente, por favor me solte que eu estou com falta de ar, você parece que comeu lama! Aí Darésio descofiado que só cachorroo de fateira, soltou o piteuzinho no salão com uma vergonha daquelas. O jogador tentou se justificar mas a sofredora deu no pé, não quis nem escutar.

Daquele momento em diante Darésio nunca mais foi na Marquise, porque a gatinha contou o fato as amigas na escola e eu estou relatando nos Causos & Contos. Que sem graça rapaz, tenha vergonha!!!

quarta-feira, 29 de abril de 2009

O Touro Mimoso, o Fazendeiro e o Americano

Por Gilberto Moura

Nos meus tempos de criança, Afogados e Região era grande produtora de algodão, verdadeiro ouro branco que fez a prosperidade de muitos e a miséria de outros tantos quando sucumbiu à praga do bicudo. Como a região foi colonizada por patas de boi, ou seja, desbravada pela Casa da Torre para a criação extensiva de gado bovino destinado a alimentar os escravos dos engenhos de açúcar do litoral, arraigou-se na região a pecuária bovina, ainda que rudimentar e de pouca produtividade.

Mesmo assim, cheguei a ver e visitar fazendas maravilhosas, geradoras de riquezas e de empregos tanto na lavoura quanto na pecuária e na rudimentar agro-indústria da farinha de mandioca e dos engenhos de melaço e rapadura. Passado quase meio século, posso citar a Fazenda Riacho do Mel de Posidônio Gomes, homem poderoso, pai de deputado, prefeito de Afogados e de Sertânia onde repousam seus restos mortais; cito ainda a fazenda de José Virgínio em Iguaraci que fazia a melhor rapadura da região, a fazenda de Lolô na Serrinha, a dos Rafael em Jabitacá e acima de todas elas, a que mais me impressionava pelo dinamismo e pujança, a fazenda de Anselmo Correio na Queimada Grande. Propriedade maravilhosa, ricamente aparelhada com engenho e casa de farinha, açude, tropa de cavalos de grande qualidade e rebanho bovino dos melhores da região.

Hoje recordo com tristeza, todas sem exceção deixaram de produzir. Viraram casa de campo de algum herdeiro mais esperto ou foram retalhadas e vendidas na bacia das almas a troco de banana. Mas, deixando a tristeza de lado, voltemos ao relato.
Anselmo Correia era um empreendedor, um curioso nato, um autodidata. Daquela figura minúscula fisicamente sempre se podia esperar grandes feitos, a forma como tocava sua fazenda era a prova maior de sua capacidade pessoal. Seu rebanho bovino não se resumia ao gado pé-duro, tão comum no Sertão, descendente ainda do gado português de baixa qualidade com o qual Garcia D'Ávila colonizou a sua sesmaria, era muito melhor, pois Seu Anselmo, já naquela época pensava em melhoramento genético, inseminação artificial e tantas outras técnicas que só viriam a se popularizar a pouco mais de 10 anos.

Na sua fazenda tinha um reprodutor, um touro guzerá meio-sangue, de grande produtividade, chamado Mimoso. Naquele tempo não havia congelamento de sêmem em nitrogênio como hoje, colhia-se o sêmem na hora, fazendo o touro ejacular numa vulva artificial, dividia-se o sêmem em doses menores e aplicava nas vacas ali mesmo. Cada monta de Mimoso rendia de 10 a 15 doses de sêmem de alta qualidade e sempre resultavam em prenhês positiva e bezerros de boa linhagem. Não bastasse tanto, Mimoso era de uma docilidade inacreditável para um animal daquele porte, era portanto, o xodó do velho fazendeiro. Mas, o tempo é o tempo e por conta do tempo, Mimoso foi ficando velho e suas qualidades reprodutivas foram escasseando e para Seu Anselmo aquilo era desesperador. Na época Afogados tinha a filial de uma empresa americana que comprava algodão "in natura", a Boxwell & Cotton Company. Não sei como, mas o certo é que a decadência de Mimoso chegou aos ouvidos de um agrônomo americano que prestava serviços à Boxwell.

Assim é que certo dia esse senhor chegou a fazenda de Anselmo Correia com uma maleta muito bonita, querendo uma meia hora de atenção, segundo ele para resolver o problema do touro Mimoso.
Seu Anselmo era um cavalheiro, recebeu a visita, mandou servir sucos e frutas e se colocou à disposição do americano.

O americano começou a falar com seu carregado mas compreensível sotaque:

- Senhor Anselmo, o que trago para lhe demonstrar, vai resolver a baixa produtividade do seu reprodutor por mais 5 ou 6 anos, ele vai voltar a produzir com a mesma freqüência e quantidade de um touro novo.

Dito isto, abriu a maleta e apresentou a sua maravilha:

- Veja Senhor Anselmo, isto é um ejaculador eletromagnético, a última grande invenção da veterinária americana!

Disse isto exibindo um cilindro de cobre do diâmetro de uma garrafa de refrigerante com uns 60 centímetros de comprimento e ligado por dois fios a um magneto de manivela, semelhante aqueles usados em telefones antigos e que a policia menos esclarecida usava e até usa hoje em dia como instrumento de interrogatório.

E explicou:

- Veja que simplicidade senhor Anselmo, o senhor introduz esta sonda (o cilindro de cobre) no ânus do touro e gira esta manivela, dai ocorre uma descarga elétrica cientificamente calculada no organismo do touro e ele ejacula.

Seu Anselmo ficou contemplando aquela parafernália à sua frente e sem encontrar razoabilidade alguma naquela proposta, indagou:

- O senhor está sugerindo que eu coloque isso no meu touro e ainda dê um choque? O senhor já viu meu touro? Já cortou palma para ele? Já deu água? Já fez um carinho na testa? Já viu os netos de 5 a 6 anos brincando com ele como quem brinca com um gatinho ou um cachorrinho? Já viu um filho do meu touro? Sabe de quantos campeões de exposição ele é pai por esse mundo a fora? Tem idéia de quanto dinheiro ele já me deu? E finalizou:

- Meu amigo, se eu lhe disser onde eu estou com vontade de enfiar esse troço e dar um choque o senhor não acredita! Acredita?

O americano respondeu:

- Senhor Anselmo, eu acredito, até mais ver Seu Anselmo, até mais ver.

O americano nem esperou seu Toreba ir buscá-lo de volta, foi a pé da Queimada Grande até Afogados, e foi ligeiro, "visse"?

terça-feira, 28 de abril de 2009

A MORTE DE ELILSON GÓES


Por Nill Júnior

Elilson Góes é natural de Sertânia e hoje é Secretário de Cultura daquele município, mas teve toda a sua vida uma relação com o rádio interiorano, já passando como radialista e Diretor por várias delas como Itapuama FM, Santa Maria de Monteiro e Transertaneja FM. É um dos grandes amigos que construí nesse mundo da radiodifusão.

Quando passou pela FM afogadense, Elilson foi sem querer protagonista de uma das mais tristes histórias dos mais de 15 anos da emissora: a sua própria morte. Em 1994 a rádio cobria pela segunda vez os Jogos Escolares Regionais, dirigida por Edcarlos Bezerra e tendo no seu quadro Nill Júnior, Wellington Rocha, Elilson Góes e o próprio Edcarlos.

Ocorre que vindo da temida Serra de Teixeira, Elilson sofreu um acidente. A primeira notícia que chegou a emissora em Afogados foi que ele estava em estado gravíssimo. Trocando em miúdos, era só esperar a fatídica hora de anunciar sua morte. Mesmo com uma cobertura tão importante, a equipe da Transertaneja à época não teve dúvidas: começou a tocar apenas músicas fúnebres instrumentais e chamava com flashes do Centro Desportivo.

Nill Júnior e Wellington Rocha não paravam de anunciar em tom de nota de sepultamento: “Estamos aqui anunciando os resultados apenas por compromissos com nossos patrocinadores, mas de coração partido, pois nosso companheiro Elilson está à beira da morte vítima desse acidente. Pedimos a Deus e a todos que orem por ele”. Aquela altura ninguém pedia pela restauração dele e sim por ele. Ou seja, para que Deus o pusesse em bom lugar no céu. Não acreditavam nem que escapasse...

Para o dia seguinte já se esperava que a notícia fosse da hora do sepultamento, local, etc. Dono da rádio, Inocêncio Oliveira já preparava uma nova de pesar. A Direção já solicitara ao governo municipal decreto de luto oficial por três dias. As flores já estavam encomendadas à floricultura. O clima era de tristeza. Da recepcionista à direção, olhos marejados pelo colega que se fora...

Eis que surge o próprio Elilson na porta da emissora bem vivo, apenas com leves escoriações. “Oxe Elilson, tu num tava quase morto?” – perguntaram os profissionais achando se tratar de uma alma se despedindo. “Agora pronto, foi só um susto. Eu não mandei dizer que apesar do susto estava tudo bem?” Nill Júnior – ainda dando seus primeiros passos e totalmente inexperiente - grelou os olhos e disse :” Mas a recepcionista entendeu que o recado era PRA GENTE NÃO TER SUSTO, MAS NÃO TAVA NADA BEM”...

Pronto, lá se foram todos os comunicadores pra o ar anunciar A VOLTA DO MORTO VIVO ELILSON, desfazendo uma das maiores gafes da história da emissora.

domingo, 26 de abril de 2009

A brechada do negão no banheiro do ACAI


Afogados da Ingazeira tem gente com cada apelido estrambólico. É Arroz da Ponte, Xerém do Borges, Farinha da Vila e Macarrão da Rua Nova. Portanto vou criar um personagem com o nome Caroço de feijão pra deixar esta coisa mais diferenciada. Nêgo Caroço que é um personagem fictício mas um dos originais em tela, é desses cabras enxerido, cheio de pantim como diz o matuto, danado pra está onde não lhe cabe o bico. Por onde você anda o encontra, parece que o infeliz se transforma em dez, logo o produto representa grãos, talvez seja por isso que o negão seja divisível.

Quando frangote, o danado não perdia uma festa realizada no antigo ACAI (Aeroclube de Afogados da Ingazeira). Bons tempos... Mas deixa pra lá, quem mandou a comissão fazer barulho e depois recuar da decisão de não permitir que o monumento fosse demolido.

Esquece, o Barão disse que o povo não imagina o quanto Afogados vai desenvolver com a construção do Sistema Viário de Contorno. Ele frisou que é preciso ter visão de futuro para enxergar que a cidade deu um salto de 20 anos.

E que salto... Não seu mané, se tiver alguma crítica encare o homi e o diga! Talvez você tenha pensado: quem é doido? Mas ele me recebe muito bem e até digere minhas críticas. Até que ele tá mais leve. Não encare como bajulação, até porque ele não vai muito comigo, é só espiar o tamanho do espaço que tenho em seu governo. Inda bem que tenho meu emprego! Mas se não tivesse... Tava lascado.

Mas vamos ao que interessa, deixa o prefeito pra lá que ele sabe muito bem o que pensa as pessoas; babão é que não falta para contar. E pra Valadares isso não interessa, o que vale é que o danado é um tocador de obras sem igual, pena que a imagem não foi tão bem tratada neste sentido. Ficou na cabeça das pessoas a idéia de que é popeiro que só a peste! Mas é mero engano.

Eu não sei pra quê estou falando isso, se não tem nada a ver com o causo. Vôte, parece que tô ficando doido! Safadeza não rapaz, respeite a polícia! Cabra de mente suja. O ACAI por muitos anos foi palco de muitos carnavais e eventos importantes. Cheguei inclusive a prestigiar vários shows, mesmo na minha fase de adolescente.

Pois bem, as paredes do demolido, hoje estrada de muitos felas, eram rebocadas por dentro, porém por fora era um Deus nos acuda. Por trás havia um matagal desgramado e uma cerca da altura da Torre de Babel, mas a minineira como dizia Marcone pulava com facilidade. O pior é que os infame não sofria nenhum arranhão. Se fosse um pai de família trabalhando certamente quebraria o pescoço. Ah infeliz da costa oca de sorte!


No banheiro das mulheres tinha uns cinco buracos. E olha que esses buracos serviram pra se ver muita coisa interessante... Do lado de dentro, havia luz e por isso os buracos não eram visualizados com facilidade, já que na parte de trás a escuridão tomava de conta e a galera gostava.

Num dia desses de festa, estava a polícia de serviço na frente do clube, quando de repente fora solicitada para coibir a maloqueirada que se encontrava lá no banheiro das mulheres curiando o que não deviam. Imediatamente os praças da guarnição foram ao local e constataram a veracidade do fato. Parece até que estou imitando aqueles boletins registrados pelos companheiros, que os textos são sempre os mesmos, é como entrevista de jogador de futebol.

Quando os policiais pularam a cerca e esbarraram nos cabras, os mais espertos correram que as pernas batiam na bunda, porém os mais bizonhos ficaram na fila aguardando a vez pra dar sua espiadinha no buraco da felicidade. Nisso, Caroço era o da vez e estava mais intertido, como diz Biu Calcinha que só pinto em bosta de manhã, quando o cabra vai cagar no mato, ao cheiro do marmeleiro e limpa o furico com um peste de um sabugo. Não diga que você nunca fez isso?

O soldado chegou à fila fumaçando de raiva pelos ouvidos. É que a cerca tinha arranhado o braço do companheiro, os arames eram cobertos por galhos de jurema preta e pedaços de mandacarú. Tava um som alto da gota serena, mas o policial não quis sabem disso, deu um cutucão nas costas do nêgo, assim como se mete o ferrão com raiva em boi bravo. Aí ele gritou de lá:

-Peraí rapaz que a vez é minha, daqui a pouco é você, só mais um pouquinho. Que cara mais apressado!

Daí a pouco, outra fisgada nas costas e ele resmungou:

- Só um pouquinho, estou terminando...

Na terceira futucada ele virou arretado, já com a mão cheia de cuspe e falou:
- Vai te lasc......

Quando se deu conta que era a polícia deu um sarto da molesta dos cachorros e pulou a cerca num segundo. Ô carreira da besta cigana, nem Cal Lions, recordista mundial dos cem metros rasos pegava o brechador. Esta história foi real e o nome do personagem é fictício. Qualquer semelhança é mera coincidência.

sábado, 25 de abril de 2009

SOARES, HILDINHA E A CARNE DE BODE

Por Gilberto Moura

Quando o Soares, pernambucano de Palmares aportou pelas bandas do Pajeú como funcionário da CELPE era rapaz novo, doido para casar, ter família, um cobertor de orelhas para as noites frias e um chamego para as noites quentes. Estava cansado da curta solteirice, queria ser pai, chefe de família.

Nas andanças pela zona rural, por conta dos programas de eletrificação promovidos pelo Governo Arraes, teve a ventura de conhecer Hildinha, cabrocha faceira e cheia de predicados elogiáveis também doidinha pra casar e morar na cidade, ou dizem "na rua".

Foi juntar a fome com a vontade de comer e após breve namoro, saiu o casamento oficial, no juiz e no vigário seguidos de uma festança regada a cachaça e cerveja resfriada no tanque de água com areia com galinha de capoeira e arroz da terra.

Passados os festejos, o casal começa a vida em comum e finalmente chegou o dia tão esperado por Soares, ou seja, o primeiro sábado de casado, o dia de Soares fazer a primeira feira para a sua casa, o seu "lar doce lar" ou "home sweet home" como cantava Nat King Cole.

Hildinha ficou em casa, na limpeza e arrumação de sua "casa de verdade" tão diferente daquela casa de brinquedo com bonecas de pano e sabugo de milho que tinha na roça.

Soares caprichou nas compras, frutas, verduras, legumes variados e para arrematar, impressionar Hildinha, convencê-la definitivamente de que ele era realmente "o cara", comprou um enorme quarto de bode. E não era um quarto de bode qualquer, era traseiro, gordo, coisa linda! Ocorre que Soares, desde que chegou ao Sertão ficou viciado em carne de bode, de qualquer jeito, assado, ensopado, frito, se tivesse aquele cheirinho característico, era com ele mesmo!

Assim chegou Soares em casa, com aquela feira imensa e aquele quarto de bode maior ainda, pronto pra colher os elogios de Hildinha.

Quando Hildinha viu aquilo tudo em cima da mesa, disparou como um tiro no peito de Soares:

- Oxente Soares! E tu comprou foi bode?

Disse isso com um ar de repugnância tão grande que despertou os instintos mais sombrios de Soares, ferveu-lhe o sangue nas veias, logo ele, um chefe de famíia? Não merecia tanto desdém! Sentiu seu casamento tão promissor ir por água abaixo, todos os seus planos e sonhos serem abatidos por um quarto de bode tão lindo. Não era justo! Então, se recompôs da surpresa e devolveu:

- Olhe Hildinha, eu te conheci comendo preá e a partir de hoje nessa casa só entra carne de bode!

E assim foi, Soares passou dois anos comprando somente carne de bode até que ele mesmo enjoou e começou a variar, era galinha, porco, peru, cortes nobres de boi, peixes, até pato e marreco quando ele achava comprava, até que um dia Hildinha reclamou:

- Oxente Soares, nunca mais tu comprou um "bodin"?

(Essa historia me foi contada pelo próprio Soares, em conversas divertidíssimas no Bar de Tripa, seu "escritório" depois de aposentado da CELPE. Aposentadoria abreviada por um infarto fulminante, que deixou Afogados menos cordial e mais triste).

sexta-feira, 24 de abril de 2009

A nota de falecimento lida por Toinho no Grau

Toinho Soares é o cara mais fanático do mundo por o tal do microfone. Ele apresenta um programa de forró na Rádio Pajeú chamado “Crepúsculo Sertanejo”. O danado já foi cantor de forró, chamador de bingo, motorista de carro de som e até apresentador de pastoril.

Onde tiver um microfone Toinho entra noite à dentro. É como jogador de baralho que esquece do mundo quando está naquela mesa fedorenta, rodeado de fumantes ativos que vão ao banheiro, fazem suas necessidades, não lavam as mãos e pegam nas quadradas o dia inteiro. Por isso que as cartas fedem mais do que suvaco de aleijado.

Mas vamos deixar isso de lado e falar do que interessa. Afinal quem deve falar sobre mesa de jogo de baralho são os próprios jogadores que na maioria das vezes vendem até as cuecas para arriscar no jogo. Coitado de um primo meu chamado Hermes Pinheiro. Já teve muito prejuízo, mas hoje afirma que está libertado da tentação.

Certa feita, Soares recebeu no início do Programa Crepúsculo Sertanejo, que começa às 16h uma nota de falecimento de uma senhora que havia batido as botas no Sítio São João, município de Afogados da Ingazeira.

Distraído com tantos comerciais, ele mandou abraço até para Marco Bundinha que estava em Brasília trabalhando de entregador de panfleto em frente às lojas. Por falar nisso ele tá aí na boemia e com bufunfa no bolso. Ainda ontem o galã brasilense estava conversando com Biu Calcinha na calçada de Zé Marcolino, tratorista véi aposentado.

É característica do locutor em tela, mandar alô pra toda matutada desses sítios. Logo o febrento cantou na banda de Ismael Galdino e conhece uma porrada de gente na zona rural. Mandou alô pra cá, pra ali, pra aculá, e tome o tempo passando...

Quando deu por conta de que a nota de falecimento da véia estava em baixo das outras, Toinho ficou bastante aperreado, olhou para o relógio e atordoado leu o aviso na maior rapidez, só que o sepultamento estava marcado para às 17h e quando ele estava anunciando a morte da véia Chica, o relógio já marcava 17h15. Sem ter percebido que o horário havia estrapolado e o caixão já havia sido conduzido ao Parque da Saudade Toinho falou:

- São cinco horas e quinze minutos. Estamos apresentando o Programa Crepúsculo Sertanejo! E atenção para esta nota de falecimento. Os familiares de Maria Francisca de Souza, conhecida como Chica de Zé Moraes, avisam que a mesma faleceu ontem à noite e convida todos para o seu sepultamento que será hoje às cinco horas no Cemitério Parque da Saudade. Ô sepultamento no grau, minha nossa, o corpo já saiu? Corra que ainda dar tempo pegar, acho que o caixão ainda não chegou ao cemitério!

E assim "No Grau" se saiu bem nesta nota de falecimento divulgada quinze minutos após a saída do corpo com direção ao cemitério. Me pediram para registrar nos meus causos & contos. E eu atolei de cá!

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Bartó de Lia, o orador de Lúcio André


A política é uma praga tal que eu aconselho todos a não se meterem nela. É Paixão para uns. Satisfação para outros. Idealismo para alguns. Meio de vida para tantos.


Ela organiza a forma de vivermos juntos, produzirmos e distribuirmos os bens. No início, um ou outro político entra no ramo movido por um ideal. Uma vez que ideal é paixão e esta é fogo de palha e por isso dura pouco.


Todo mundo já foi enganado por algum político inclusive você, não se faça de engraçadinho ou engraçadinha. Será que eu não sei as falcatruas e o que o político pode criar ou inventar para passar a perna no próximo.

Ah, mais vamos ao que interessa, já basta tanta embromação por parte do governo municipal em relação às indicações de cargos em Afogados, já tem nego em tempo de engolir o barão vivo de tanta raiva.

Certa feita, Lúcio André foi incentivado pelo pai a concorrer uma vaga na Câmara de Vereadores. A princípio ele engatou logo uma ré e falou ao seu pai o Dr. Dionísio Almeida:

- Papai, não adianta eu inventar isso se eu não sei falar em palanque. Deixa isso pra quem sabe e gosta da coisa!

Dionísio que queria o filho na política a todo custo respondeu:

- Não se preocupe meu filho, aculá tem um orador bom e eu vou contratá-lo para falar por você nos comícios, trata-se de Bartó de Lia, um pescador desenrolado da molesta!

Aí Lúcio André se animou e aceitou ao convite do velho:

- sendo assim, eu vou para o sacrifício papai, mas me fale logo o que é política, que eu tô como cego em tiroteio.

Com uma resposta simples Dionísio deixou Lúcio André pronto para encarar os demais candidatos:

- meu filho ser político é fácil, é só forçar o sorriso, abrir os dentes demonstrando está alegre, dar aperto de mão até em tuberculoso e dizer sempre, sim vou ver o que posso fazer por você!

Registrada as candidaturas, Bartó de Lia começou a falar nos palanques e defender o nome do candidato a vereador Lúcio André. Fez diversas apresentações do nome do filho de Dionísio e ganhou algumas vezes um gato pingado de aplausos.

Em comício realizado no Bairro Ezídio Leite, Bartó fez um levante da peste no nome de Lúcio André. O discurso do febrento agradava e tinha gente que dava gargalhada a bersa.

Lúcio gostava de ficar ao lado de Bartó com os dentes abertos saudando o pessoal. Ao som do microfone o pescador elogiava o candidato:

- este jovem é uma promessa da política afogadense, filho do Dr. Dionísio Almeida, um homem que tem muito serviço prestado em Afogados da Ingazeira. Lúcio carrega no coração o amor do tamanho dessa gente que está neste comício, tem muitos ideais e sonha governar um dia os destinos desta terra.

As palmas vadiavam no centro e Bartó de Lia que empolgado defendia Lúcio André de unhas e dentes concluiu o discurso e entregou o microfone ao apresentador sem ter mencionado o número do candidato.

Apavorado, ele tomou o microfone da mão do apresentador que já havia anunciado outro candidato que ia falar e completou:

- Minha gente, eu falei bem que só a peste do meu candidato a vereador, mas esqueci de lembrar o número dele pra vocês. O número de Lúcio é 14666, um, quatro e o número da besta fera!

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Toinho de Ismael na Paixão de Cristo


Toinho Brafuta é muito conhecido em Afogados da Ingazeira pelas presepadas que pintou quando frangote. Ele é filho de Ismael Pedreiro, que por sua vez é irmão de Juraci Agostinho, que é irmão de Ninô do Caminhão.

Certa feita, o responsável do grupo de teatro da Paixão de Cristo de Afogados o convidou para fazer parte da peça, porém o personagem só seria avisado minutos antes da realização do primeiro ensaio. Brafuta aceitou ao convite e ficou alegre que só pinto em bosta.

Na hora do ensaio escolheram Brafuta para fazer o papel de um soldado. Todos gostaram da atuação do danado pela forma dinâmica e segura no texto, afinal seu papel seria dar chicotada em Jesus, interpretado por um tal Sidnei, parente de Zé Mendes da lotação de Carnaíba. Não era para Brafutar dar uma palavra sequer. Acho que o responsável sabia das loucuras do convidado.

Naquele tempo poucas pessoas tinham um aparelho de TV em casa, por isso nascia menino feito a peste. Hoje a mulherada casada reclama da modernidade em razão de um instrumento responsável por uma infinidade de gaia nesse mundo a fora: o ingrato computador.

Mais isso é outra história, vamos ao que interessa. No dia da apresentação da Paixão de Cristo, a Praça Arruda Câmara estava tomada de canto a outro, inclusive com muitos expectadores da zona rural que adoravam assistir ao espetáculo.

Várias cenas foram representadas por atores locais, mas nenhuma chamou tanta atenção como à de Brafuta chicoteando Jesus. O responsável pela peça deu a cada um dos soldados um chicote de couro fino que deveria ser usado de forma figurativa.

Mas o Brafuta já cheio das biritas olhou para as costas de Sidnei e desceu a chibata pra cima, assim como se dar em um jumento ruim de cangaia. O Jesus fazia ar de dor a todo instante, mas o público pensava que era apenas a parte dramática interpretada pelo ator. As lágrimas caiam dos olhos e ele não via a hora daquela triste cena acabar.

Um rapaz que estava perto do Jesus ficou admirado com a cena e comentou com o amigo:

– rapaz esse cara nasceu pra ser ator! Olha para o rosto dele, tá saindo lágrimas de verdade.

Sem estar nem aí pra vida, Brafuta descia o chicote com toda força nas costas do Cristo e gritava em alta voz, sem ter nada a ver com o texto, afinal o infeliz não tinha autorização pra falar absolutamente nada:

– mardito ruim, Jesus de verdade era bom, mas tu não vale nada e só merece cacete! E tome chicotada.

Nisso Sidnei sem agüentar mais tanto cacete no lombo falou pelo canto da boca, fí da peste, quando eu sair daqui tu vai me pagar, aguarde!

Quando acabou a apresentação, Brafuta ainda vestido de soldado se abufelou com Sidnei na vera, como diz o matuto e foi taco de roupa pra todo lado.

Os outros personagens entraram pelo meio, apartaram a briga, e eu estou registrando isso hoje dizendo que foi um fato real.

terça-feira, 21 de abril de 2009

"Pelado" no Independente de Pedrinho


Time de futebol amador é a molesta dos cachorros pra ter jogador irresponsável. Também pudera, os desgraçados têm que comprar chuteira, calção, meião e o diabo a quatro...

Num domingo desses a equipe do Independente de Pedrinho foi se apresentar no Povoado de Itã, município de Carnaíba.

Os peladeiros daqui têm o costume de ficar nas beiras de pista esperando algum carro, seja o time que for para brincar dentro das quatro linhas, é o chamado “pega na rua”.

Pois bem, tem um jogador no Bairro da Ponte por nome de Pelado, o bicho é ruim que só a palavra “teje preso’. O infeliz aguardava no bendito dia, um carro desses pra jogar, aí por arto do capeta ele subiu na F-4000 que levava o time do Independente.

O peste foi recebido com muito carinho, mas na hora do espetáculo no pedregulho da Itã andou aprontando algumas. Por pouco não arranjou uma briga com um matuto e quando acabou o jogou encheu o tolé de cachaça. O Independente empatou em 0x0 com o Juventude, por sinal eu participei da tarde esportiva jogando no segundo quadro. Aposto que se Aldo Vental ver isso vai tirar onda, mas ele também jogou aspirante o tempo todo...

Pedro Marcelino sempre gostou de fazer animação durante as viagens em cima das carrocerias ao som de um pandeiro, de um triângulo e de uma zabumba. As músicas eram bastante manjadas e a galera tava arretada de tanto ouvir, o Pano de Coar Dentro, Adalgisa, e a música intitulada Mané de Louro...

Na volta Pedrinho inventou de cantar e desafinado que só a gota serena lascou o pandeiro pra cima acompanhado dos outros instrumentos. Uma meia dúzia gostava e até soltava a voz timidamente, pois as músicas eram conhecidas de tanto o danado cantar.

Pelado, como já falei ruim que só germe de porco na tua cabeça, tentou tirar umas com Marcelino e começou a gritar no meio dos jogadores tirando a concentração nas músicas. A estrada já escura e várias vozes acompanhando Pedrinho, aí o desgramado aproveitou com uma voz fina, até então desconhecida.

- Isso é uma porcaria, beeeeeeeeeeeeeeeeeee!

Era cada berro que até quem estava na cabine ouvia.

Ao se sentir incomodado Pedrinho bateu no vidro do carro pediu que parasse e advertiu – alguém está com gracinha aqui atrapalhando minhas músicas, se eu descobrir vou botar pra descer!

O carro seguiu novamente, mas a poucos metros Pelado deu outro berro. Pedrinho bateu no vidro e pediu que o motorista parasse novamente. Aí novamente fez as mesmas recomendações e avisou que ia colocar o engraçadinho pra descer do carro. Mas nenhum deles acusou-se.

Novamente o motorista deu na chave e meteu o pé no acelerador com tanta indignação que a fumaça subiu na escuridão... Nisso, Pelado deu outro berro aproveitando a raiva do motorista que estava apressado para assistir a missa com padre João carlos Acioly, vigário de Afogados na época.

Impriquitado Pedrinho gritou – para esse carro aí motorista, que eu quero descobrir quem é este palhaço!

O motorista lascou o pé no freio que foi suvaco fedorento pra todo lado. Os cabras todos suados depois do jogo; tava uma carniça triste. Voou garrafa de cana de toda espécie por cima do gigante.

Sem agüentar mais, Pedrinho perguntou aos jogadores: – nós viemos para o jogo em paz?

Aí todos responderam – sim viemos!

Novamente ele perguntou – nós estamos voltando para casa em paz?

Aí quando chegou nesta parte Pelado gritou lá do fundo da carroceria – pois não padre Marcelo Rossi!

Aí Pedrinho retrucou – O palhaço é você mesmo, bora desça do carro e pode ir a pé pra você aprender!

O jogador desceu e tirou a pé da Itã até o bairro da Ponte onde se esconde.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

No Tribunal do Júri com um Réu Enfezado

Por Gilberto Moura (Advogado)

Certa feita, em viagem de férias a Pernambuco acompanhado de meus filhos, então pequenos, depois de três pernoites e 2600 quilômetros de buraqueira, enfim cheguei à casa da parentada mais morto que vivo, mas contente, pois tinha pela frente 15 dias de vadiagem da mais alta qualidade.

Acomodei as crianças e antes de tomar um banho fui ao boteco de minha estimação para um gole de pinga boa e uma cerveja pra espalhar o sangue.

Estava lá de prosa quando chega um conhecido, também advogado, que me chama num canto e pede para falar comigo mais tarde, coisa importante diz ele com a voz rouca, quase incompreensível.

Expliquei onde estava "arranchado" e marquei para as 8 da noite, pois ele chegou 7:30 com as cópias de um processo criminal e foi logo abrindo o jogo:

- Preciso que você me ajude, faça essa defesa oral para mim. O Tribunal está fazendo um júri atrás do outro e eu atuei em 2 seguidos e já estou sem voz para debater e sem argumentos para esse caso, o sujeito matou por vingança de uns tapas que levou da vítima e vai pegar uns 30 anos mais as qualificadoras.

Tentei tirar o corpo fora mas não foi possível, falei pra ele arranjar um atestado médico e adiar o júri, ele disse que se fizesse isso o cliente ia ficar preso mais um ano pois só seria julgado na temporada de júris do ano seguinte. Resumindo, resolvi ajudar o colega a descascar o abacaxi.

Fiquei com as cópias do processo para estudar e marcamos de ir ver o preso pela manhã. Lá chegando ouvimos a versão dele da história e fiquei apavorado, o danado se vangloriava abertamente de ter mandado a vitima pras calendas. Então passei a aconselhar quanto ao comportamento durante a sessão, ou seja, tratar juiz e promotor de excelências, cabeça e voz baixas, ar de arrependimento, etc.

No dia seguinte foi o julgamento.
No interrogatório ele se comportou muito bem, falou de sua vida de homem honesto, trabalhador, pai de família, etc.
Nas perguntas do promotor também, fiquei animado achando que o representante da acusação tinha "comprado" e realmente tinha a história de bom mocismo.

Na pergunta final, o promotor, talvez querendo facilitar a atuação da defesa e a vida de pessoa tão boa, perguntou:

- Senhor Fulano de Tal, o senhor se arrepende de ter matado o senhor Sicrano?

O danado respondeu, quase gritando:

- Olhe excelência, eu nunca pensei em matar ninguém na minha vida, mas se aquele cabra safado nascer de novo e bater na minha cara outra vez, eu mato!

sábado, 18 de abril de 2009

A cantoria de Miguel Espinhara em Santa Rosa


Houve um tempo em que os artistas do repente eram bastante requisitados para realizar as chamadas “Cantorias” e olha que a presença de público era de arrebentar a boca do balão.

Tinha deles que andava de sapato alto. Era igual a bancário, antes do governo Collor. Quando a rádio anunciava, o poeta Mané de Soiza, estará se apresentando no Sítio Leitão, a macacada ficava dando sarto de alegria. Aparecia gente até de um olho só. O cantador brilhava em noites escuras neste Brasil a fora...

A atividade do repente já foi bastante valorizada. Surgiam novos valores e havia mais incentivo por parte da imprensa e dos poderes públicos municipais. Mas hoje quem diria, está em extinção... Surgiu banda de forró de toda espécie, motivado pelo mau gosto do público.

Pois bem, vamos ao que interessa isso aí é um assunto para Alexandre Moraes e outros Secretários de Cultura da região resolver. É necessário utilizar o poder de conhecimento, mostrar, provar, justificar, que a poesia deve ser vivenciada no nosso dia-a-dia.

O poeta Miguel Espinhara, foi fazer uma cantoria no povoado de Santa Rosa, zona rural do município de Ingazeira. Chegando lá um dia antes, foi recebido por um velho ignorante da peste. Chegou à hora do almoço e não saiu nada para o poeta. As tripas do infeliz roncavam mais que o motor do Carro de Som de Marconi Edson.

Sem suportar mais a fome Espinhara olhou pro velho e falou – fome né? Já são duas horas e até agora só engoli poeira. Ao ouvir as palavras do poeta, o velho foi lá dentro, acendeu o fogão, fez um cafezinho e trouxe ainda um prato com dois bolinhos de caco dentro. O poeta comeu e lambeu o beiço à vontade.

Mas ele aguardava uma noitada com um prato cheio de cédulas gordinhas... O salão lotou de matuto, era um fedor de macaco morto a tapa da desgraça, e o pior é que os tristes estavam lisos que só bucho de traíra. Mas miguel lascou a viola pra riba e tome aplausos!

Antes de terminar a cantoria, o dono do salão chegou próximo ao ouvido de Miguel e disse que a coisa tava preta, ou seja, o dinheiro do apurado não dava nem para pagar o transporte. Ele ficou furioso com o recado do anfitrião. Olhou para um lado, olhou para o outro e com um tom de doer o pé dos ouvido dos matutos terminou:

Vim cantar em Santa Rosa,
Aqui não presta pra quem canta,
Passei o dia inteirinho,
Sem almoço e sem janta,
Não senti o cheiro da flor,
Nem o milagre da Santa.

Aí a matutada sem perceber bateu palma que abalou o salão.

Lembrando que o fato em tela contado por Itamar França aconteceu de verdade, na vera, como diz o caipira.

 
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