sábado, 18 de abril de 2009

A cantoria de Miguel Espinhara em Santa Rosa


Houve um tempo em que os artistas do repente eram bastante requisitados para realizar as chamadas “Cantorias” e olha que a presença de público era de arrebentar a boca do balão.

Tinha deles que andava de sapato alto. Era igual a bancário, antes do governo Collor. Quando a rádio anunciava, o poeta Mané de Soiza, estará se apresentando no Sítio Leitão, a macacada ficava dando sarto de alegria. Aparecia gente até de um olho só. O cantador brilhava em noites escuras neste Brasil a fora...

A atividade do repente já foi bastante valorizada. Surgiam novos valores e havia mais incentivo por parte da imprensa e dos poderes públicos municipais. Mas hoje quem diria, está em extinção... Surgiu banda de forró de toda espécie, motivado pelo mau gosto do público.

Pois bem, vamos ao que interessa isso aí é um assunto para Alexandre Moraes e outros Secretários de Cultura da região resolver. É necessário utilizar o poder de conhecimento, mostrar, provar, justificar, que a poesia deve ser vivenciada no nosso dia-a-dia.

O poeta Miguel Espinhara, foi fazer uma cantoria no povoado de Santa Rosa, zona rural do município de Ingazeira. Chegando lá um dia antes, foi recebido por um velho ignorante da peste. Chegou à hora do almoço e não saiu nada para o poeta. As tripas do infeliz roncavam mais que o motor do Carro de Som de Marconi Edson.

Sem suportar mais a fome Espinhara olhou pro velho e falou – fome né? Já são duas horas e até agora só engoli poeira. Ao ouvir as palavras do poeta, o velho foi lá dentro, acendeu o fogão, fez um cafezinho e trouxe ainda um prato com dois bolinhos de caco dentro. O poeta comeu e lambeu o beiço à vontade.

Mas ele aguardava uma noitada com um prato cheio de cédulas gordinhas... O salão lotou de matuto, era um fedor de macaco morto a tapa da desgraça, e o pior é que os tristes estavam lisos que só bucho de traíra. Mas miguel lascou a viola pra riba e tome aplausos!

Antes de terminar a cantoria, o dono do salão chegou próximo ao ouvido de Miguel e disse que a coisa tava preta, ou seja, o dinheiro do apurado não dava nem para pagar o transporte. Ele ficou furioso com o recado do anfitrião. Olhou para um lado, olhou para o outro e com um tom de doer o pé dos ouvido dos matutos terminou:

Vim cantar em Santa Rosa,
Aqui não presta pra quem canta,
Passei o dia inteirinho,
Sem almoço e sem janta,
Não senti o cheiro da flor,
Nem o milagre da Santa.

Aí a matutada sem perceber bateu palma que abalou o salão.

Lembrando que o fato em tela contado por Itamar França aconteceu de verdade, na vera, como diz o caipira.

1 comentários:

João Duarte disse...

Sou de Olho D'água PB, filho do barbeiro João Marculino, nunca passou uma dupla de cantadores em Olho D'água que não tenha cantado lá em casa, Miguel espinhara era uma figura que se tornou amigo do meu pai, certa vês estava ele improvisando alguns versos com me primo também poeta,ele falou: Elías, vou cantar pra você um verso Picassiano. Elias exclamou: mas o que é isso Miguel? Nunca ouvi falar desse tal poeta.
Miguel então explicou, não se trata de um poeta amigo, mas sim de um grande pintor espanhol, Pablo Picasso é seu nome.
Ele então cantou.

Eu tenho uma cabra preta que dá dez litros de leite.
Quando está nos seus azeite ela fica cassinheta.
Parece uma borboleta de guarda peito e gibão.
O jegue do Damião matou a égua do Brás, quanto mais carinho faço mas recebo ingratidão..
Amigos só conhecendo a obra do Picasso pode imaginar um cabra se parecer com uma borboleta vestida de vaqueiro. Grande poeta Miguel espinhara, na semana em que assassinarem ele nas estradas de Solidão, ele uma semana antes ficou quatro dias com nós lá em casa. Deus o tenha em sua glória.

 
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