A história política de Afogados da Ingazeira registrou momentos tristes, mas também alguns engraçados. Participaram ativamente de alguns pleitos como candidato (a) a vereador (a), figuras como Baixinho Lanterneiro, Profeta, Aprígio da Granja, Luiz de Hermes, Manoel Brás, o Boi de Jade, Celso Macário, Lalú Vieira, Agenor Galdino, Bartó de Lia, Severino Carneiro, Siqueira Pescador, Antonio Careca, Zé Moxotó, Pé de Banda, Maria Luiza, Zezinho da Carapuça, Dionísio Almeida, Enock Oliveira, Augusto Manoel, Gonzaga Cabeção, João do Kurtiço, Marconi Edson, Zé Gojoba, Hélio Tadeu, Nabor, Tião da Carapuça, Múcio Fidélis, Arnaldo da Sapataria, e até o seu escudeiro político, Zé Brandão.
O nome dele é José Francisco Brandão Filho, já foi do PFLê, do PTB e hoje está no QNSB (Quero Nem Saber). Zé Brandão assim como muitos afogadenses já sonhou ocupar uma cadeira na Câmara Municipal, mas ficou somente no sonho. O danado até leva jeito pra coisa, mas sem dinheiro se torna difícil pra qualquer um, que o diga Zé Negão, Renaldo Lima e Vicentinho... Maria Luiza inventou de pedir voto pensando que o povo ia votar pela lindreza dela, rasgou a boca. A infame tirou apenas nove votos e olha que a desgraçada quase seca as canelas de casa a casa. Pois bem, Zé Brandão inventou de entrar no jogo sem saber da safadeza do povo, principalmente os da periferia.
Tem deles que passa quatro anos pagando as contas de luz, água, aluguel, tudo certinho, mas quando chega o período eleitoral frumina como diz o matuto as casas dos candidatos a vereador. Os boba serena não procuram os candidatos a prefeito, somente os vereadores de paimo em paimo. Eitas febe tife ruim. E o pior é que já viciaram com esta história de trocar o voto por alguma coisa.
Pensando em ocupar uma cadeira na Câmara, Zé Brandão entrou empolgado que só a gota serena. Procurou fazer algumas visitas antes do pleito e decidiu entrar na disputa. Já pensava em comprar um carrinho, um pedacinho de terra no sítio e concretizar outros projetos. Andava todo cheiroso no toque dos perfumes da Avon e quando o suvaco suava o azedo do charisma cobria. Ah, mas ele queria ser o político galã. Sempre de pente no bolso, quando Zé chegava a casa de um eleitor o puxava do bolso e tacava na careca. Era caspa pra todo lado. Em seguida ele batia o pente na ponta da cadeira pra farinha cair.
Sem contar que o bixiguento andava com cotonetes e palitos de dentes na carteira de bolso. Quando um eleitor o convidava pra tomar uma xícara de café ou almoçar, depois de saciar o buxo Zé Brandão, abria a carteira tirava um palito e lascava o condenado nos caninos, era taco de madeira pra todo lado. Inda tinha o chupadinho, xixi, xixi... Dava pra ver o céu da boca do infeliz. Logo em seguida o tradicional cotonete entrava nos ouvidos pra tirar umas bolas amareladas de cera. Os matutos ficavam espiando aquilo como uma coisa do outro mundo, adispois que ele saia, todos ficavam comentando:
- viu que homem educado, anda com os palitos de dente na carteira e limpa os ouvidos com umas varetas de plástico com algodão no bico, isso é que uma coisa de admirar. A gente tem que aprender a educação da rua, é difícil vê alguém assim. Ô minino pega esse palito mordido junto com essa vareta que Zé deixou no chão e joga lá fora! Acho que ele esqueceu. A menininha raquítica coitada pegou a vassoura e assim o fez, com muita satisfação. Ah, antigamente uma pessoa da rua era muito respeitada na zona rural, hoje já não tem mais isso...
Querendo ser caridoso “acreditando que o povo é gente”, Zé Brandão bolou uma estratégia de campanha e foi até Caruaru comprou 550 rádios de pilha, 280 cortes de pano, 450 camisas, 220 conga, 440 cadernos e saiu distribuindo com os conhecidos na cidade e zona rural. Sem levar em consideração as chapas de dente, os frascos de remédio, os exames de vista, as bolas e ternos de futebol que haviam solicitado ao candidato. Felizmente o danado não investiu com as demandas últimas.
Nas ruas ele abordava as pessoas com muita atenção:
- E aí já tem candidato? Quando a resposta era não, ele fazia aquele arrodeio e dava uma tapinha de leve: - rapaz eu sou candidato a vereador e gostaria que você votasse em mim. Não tenho nada pra dar agora, mas depois que for eleito...
Quase todos diziam que sim: - Claro Zé se é de votar nesses cabras ricos vou escolher você, agora eu tô precisando de um milheiro de tijolo, tem como o amigo me ajudar?
Zé olhava todo sem jeito e dizia: - O tijolo não, mas tenho um bocado de rádio de pilha, vou lhe dar um pra você ouvir o resultado da eleição e o meu nome figurar entre os mais votados. Nessa brincadeirinha pegaram tudo do Brandão e quando abriram as urnas, foi uma decepção total. Ele não teve nem a metade do número de rádios doados transformado em votos.
Quando já ia chegando em casa, um gaiato com um rádio doado pelo dito cujo gritou: - eita Zé tu ficasse em primeiro na lista dos candidatos de traz pra frente. Aí ele deu uma poupa da besta cigana: - Vá se lascar rapaz além de lhe dar o rádio você escuta minha derrota com gozação!
Depois disso ele nunca mais quis ser candidato a nada.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Os aparelhos de rádio que Zé Brandão deu
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quarta-feira, 8 de julho de 2009
A BOLA DE COURO DE TOTONHO
Seu Zeca era um enigma. Ao mesmo tempo em que vigiava seu pomar, rico em mangueiras, gravioleiras, pinheiras, cajueiros e goiabeiras, quando nos encontrava na plataforma da estação, aonde ia diariamente ver a passagem dos trens de passageiros, nos perguntava pelo estado de maturidade da fruta da época.
Dizia Seu Zeca: - Limeirinha, as mangas já estão boas prá mandar pros meninos no “Ricifi”?
Limeirinha respondia: - Tão não Seu Zeca, ainda não tão nem inchadas, vai mais uns 15 dias.
Retrucava Seu Zeca, sério: - Olhe lá rapaz! Quando estiverem boas avise que é prá mandar despachar um caixote de mangas pros meninos em “Ricifi”.
- Pode deixar Seu Zeca, pode deixar...
Assim é que Limeirinha, Eraldo, Paulo e Aluisio Gomes, Nelson, Lídio e João Lucena, Genecy, Genival e Gildo Feitosa, Luciano e Cacá Cabral e vários outros, colhíamos frutas para os tais caixotes “pros meninos em Ricifi” nas mesmas fruteiras onde fazíamos como diz o gaúcho, “a serventia no alheio”.
Nas férias escolares, principalmente nos finais de ano, os tais “meninos do Ricifi” apareciam em Afogados. Era uma turma curiosa, boas roupas, bons brinquedos, bicicletas novas, cabelos bem cortados, sapatos brilhando, mas nunca os vi na casa de quem lhes mandava os caixotes de frutas, acho que tinham medo de carrapicho nas roupas bonitas. Eles tinham de tudo, inclusive um time de futebol com uniformes e bola de couro, o BAC (Balalaica Atlético Clube). Na minha ignorância de infante matuto, achava engraçado o termo e só muito depois fui descobrir que balalaica é instrumento musical de cordas, semelhante ao banjo, e usado por um dos personagens do clássico de cinema Dr. Jivago. Além de ricos, os “meninos do Ricifi” eram intelectualizados, digo, atualizados com as artes e a literatura.
Mas, voltando à bola de couro do Balalaica e aos treinos promovidos por eles, num antigo campo que havia perto da delegacia, ali, por trás do antigo Ginásio Industrial. Nesses treinos, apesar dos meninos do “Ricifi” sempre trazerem amigos da capital, sempre faltavam jogadores para completar os times e foi nessas ocasiões que se revelou e creio se consolidou, o caráter autoritário de nosso Coronel, o danado, como o “dono da bola”, aquela maravilha em couro que todos queriam chutar, além de escalar os jogadores do seu time, queria, batia o pé, fazia questão de escalar os jogadores do time adversário, e se assim não fosse, ele colocava a bola debaixo do braço e ia embora, não tinha treino.
Como não há bem que sempre dure nem mal que nunca de acabe, um belo dia, a gangue da Rua da Estação planejou e colocou em prática a “expropriação” daquele objeto tão cobiçado. Digo expropriação, pois estávamos em pleno período revolucionário, acompanhávamos pelo rádio as aventuras de Che Guevara, Carlos Lamarca, admirávamos Marighela e o Comandante Mao com seu Livro Vermelho, afinal, éramos do proletariado, filhos da classe operária, de ferroviários nordestinos, cujo sindicato, presidido por Claudio Braga promoveu inúmeras paralisações dos trens, tanto na capital quando no interior. Quem tem mais de cinqüenta janeiros como eu tenho, sabe que em todo aquele plano inclinado desde defronte da casa de Zezé Rodrigues até a frente do antigo hospital não havia nada construído, era um matagal só, onde o mata-pasto media mais de 2 metros de altura.
Então, num desses treinos, a bola do Coronel foi chutada para dentro do mata-pasto e desapareceu “misteriosamente”, por mais que se procurasse. Somente ressurgiu depois que os meninos voltaram para o “Ricifi”, daí por diante, serviu de instrumento para as mais calorosas e animadas peladas na esplanada da estação e
no campo do Ferroviário, aquele dentro do viradouro, no caminho da Pitombeira.
Hoje, o Coronel é prefeito, mas continua “o dono-da-bola”.
Por Gilberto Carvalho de Moura
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domingo, 5 de julho de 2009
A vaca que tirou o sossego do prefeito João Alves Filho
O que era de caixão de defunto, de remédio, latra de leite, pacote de café e de bolacha, ele dava. Fora os coros de rato que andava nos bolsos. Vez por outra distribuía pros pé inchado encher o tolé de cachaça. Tinha uma infame de uma bolacha chamada Peteca, ô bicha ruim cachorra da molesta. Era a mais barata nos mercados. Minha mãe só comprava dela. Eu reclamava que só a bixiga. Não devia nem fazer tanta lamentação, quem mandou nascer pobre. Fica na tua rapaz! “É melhor ser pobre e ter a consciência tranqüila do que ter tudo com o remorso da desonestidade”. Tem um padre que toda hora diz isso na Rádio Pajeú. De tanto ouvir gravei no meu pobre subconsciente e não esqueço nem que a vaca tussa.
Depois que deixou a prefeitura, o “Cavaleiro da Paz” que chorava melhor dos que aqueles atores de novela em cima dos palanques, apresentou João Alves Filho como seu sucessor. O danado até que era gente boa. Honesto, trabalhador, transparente, mas era mais grosso do que papel de enrolar prego. Isso já tá manjado! Eu tô te perguntando cabra besta, mais manjado do que o jeito de Antonio Mariano fazer política e o povo ainda cai na dele! Tem uns intrusos que não nos deixa terminar a história, vai te lascar! Pois bem, seu Joãozinho ganhou a eleição e muita gente pensava que ele ia ser igual, ou melhor, do que o Mariano. Quebraram a cara. Seu Joãozinho era do estilo Barão Valadares, dizia as coisas na cara, com ele não tinha meio termo. Era uma ingnorâncias daquelas sem malícia nem maldade, uma coisa bem natural de um homem sério da roça.Trouxe muitos benefícios pra cidade. Ajudou a uma infinidade de pessoas dentro daquilo que ele via necessidade. Naquele tempo não existia essa política mesquinha.
As famílias se davam ao respeito. Hoje os pais não têm mais domínio sobre os filhos, ou seja, aquele espírito antigo de liderança. Isso tomou doril. Hoje qualquer candidato majoritário vai pedir voto numa casa aí quando vê o adesivo pregado na porta fica logo assustado, mas o cabra grita lá da cozinha: - quem vota no candidato do cartaz é meu pai, eu voto em quem me ajudar! O político que não é besta pergunta: - qual é o problema meu amigo se aprochegue? Na maior cara de pau o mardito fala bem mansinho: - Tô precisando de uma Carta de Habilitação, você é quem sabe, tem eu e minha noiva, eu garanto ainda lhe arrumar uns dez votos.
Olha que a gente fica com a brucuta quando escuta um sinistro desse. Triste dos políticos do Brasil se não fossem estes imbecis. Geni do Bar inventou de ser candidato a vereador e não deu um alfinete, mas também o triste não teve o primeiro voto, até o dele ele errou na hora de votar. Depois da eleição o petebista andava com um caderno entrevistando o povo: - você votou em mim? Claro, todo mundo ia dizer que sim. O povo é falso que só pêido de frango que sai do furico sem dar sinal algum. Geni já tava com uma lista de 1.146 pessoas que disseram ter votado nele. Coitado, depois dessa resolveu nunca mais entrar em política.
Mas voltando ao assunto, um carro havia atropelado uma vaca no Sítio Curral Velho, na zona rural do município de Afogados da Ingazeira, o dono do animal querendo tirar o prejuízo foi até a casa de seu Joãozinho pedir que ele autorizasse abatê-lo no Matadouro Público, ou seja, tirar o couro e aproveitar a carne vendendo aos amigos e até nas tarimbas do Açougue. O prefeito disse em alto e bom tom que não admitia e foi logo dispensando o proprietário que estava junto com dois amigos. Eles até que insistiram, mas seu Joãozinho não deu ouvido. Minutos depois chegaram mais dois amigos do proprietário da vaca e pediram novamente a seu Joãzinho para abater o animal e a resposta já foi com uma polpa daquelas: - Eu já disse que não, cadê o dono da vaca que eu quero dizer umas verdades a ele. Ora, será que a gente não tem direito de ficar em paz nem em casa, façam o favor de não mais vir aqui tratar desse assunto. Estou de saco cheio!
Por arte do cão, um parente de Antonio Gomes, comprador de gado, adoeceu e precisava urgentemente de uma ambulância. Como era eleitor do vereador João Amaral, Antonio Gomes o procurou para ir até a casa do ilustre prefeito. Não deu outra, eles foram bater lá. Animado João Amaral disse a Antonio Gomes: - pode deixar Antonio, vou resolver isso numa boa com Joãzinho, não é possível que um vereador não seja bem recebido na casa dele, inda mais eu que votei e trabalhei pra ele. Você vai ver a receptividade, nunca fui à casa de prefeito nenhum, esta é a primeira vez e espero que fique na história. Partiram os dois na maior tranqüilidade. Quando chegaram à casa do prefeito o encontraram assistindo ao Jornal Nacional. O vereador João Amaral bateu palma e gritou: - ô de casa! Seu Joãozinho resmungou do sofá: - não dou nem às horas.
Ele pensava que eram outras pessoas que estavam a sua procura para pedir pelo proprietário da vaca atropelada. João Amaral bateu palmas novamente e disse baixinho: - não é possível rapaz, Joãozinho está me desconsiderando. Vou chamar só mais uma vez, se ele não vier nós vamos embora: - ô de casa! Nisso seu Joãozinho pula do sofá com uma cara feia da gota serena, pior do que um maribondo quando vai dar uma ferruada na cara de um cristão. Aperreado e fechando o zíper da calça respondeu num tom daqueles, parecido com o Barão Valadares quando está com os cachorros da molesta nos couros: - Eu já disse que não viesse na minha porta, não mato, não mato e não mato! Aí João Amaral falou: que história de matar João, eu vim aqui resolver uma coisa e você vem com quatro pedras na mão. Bora Antonio deixa ele aí, pensei que ia ser bem recebido na sua casa, como a gente se engana.
Joãozinho todo desconcertado falou: - espere aí João Amaral, eu pensei que você vinha pedir pra abater a vaca daquele cabra importuno do Curral Velho. Aí o vereador disse: - que diabo de vaca rapaz, eu tenho nada a ver com isso, eu vim aqui falar um carro pra Antonio Gomes levar um parente pra Recife. Pra demover a fúria do Amaral, Joãozinho falou com muita educação: - sendo assim entre e vamos ver sua situação. Eu tô cum a cabeça Frumigando de raiva, se eu pudesse não ouvia falar em vaca hoje. Quem quiser seu meu amigo não fale desse bicho aqui dentro de casa. João Amaral respondeu: - Tu já vem com tuas ingnorâncias? Se ficar assim eu vou embora. Joãozinho fumaçando pelos ouvidos disse: - o que boba serena houve cum tu João, ô cabra bruto, inda dizem que o ingnorante sou eu, oxe!
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domingo, 21 de junho de 2009
A esperteza do garoto Heleno Mariano
Tem gente que conhece a fundo tal realidade, mas não tá nem aí pra coisa. Sua barriguinha cheia e o salário certo no final do mês é que importa. O pequeno que se vire nos trinta, se quiser comer um feijãozinho com arroz purinho da silva. O que tem de famílias que abandonaram a roça e vieram morar na cidade não está no Gibi. Mas vamos ao que interessa, isso é uma coisa que o Gerente Geral do Prorural José Patriota deve analisar com carinho e buscar uma solução, afinal ele tá com a bola cheia com o governador. Mas com essa ausência desgramada de Afogados da Ingazeira, fica complicado o Patriota diagnosticar o problema. O danado quando chega a Afogados não tem tempo pra nada. Quando alguém o procura, a primeira coisa que faz é olhar pro relógio e explicar que tem um compromisso de urgência, urgentíssima. É um subterfúgio fraco da molesta dos cachorros, talvez ele pense que o povo é besta.
O que bixiga lixa tenho eu a ver com o Coimbra? Homi, ele não está nem aí pra esses comentários que circulam na boca dos fofoqueiros em toda a cidade! Acho que ele deve pensar que é inveja. Mas foi assim que fez Antonio Mariano: deixou seu povo aqui jogado ao tempo e olha aí o resultado. O ex-trovão do pajeú, caiu numa decadência política horrível, impossível de se levantar. Hoje não é nem um chovisco. Virou mesmo eleitor de Giza e Totonho. Um dia desses ele andou falando em uma mesa de bar que era o pneu de estepe dos dois grupos políticos de Afogados da Ingazeira. Primeiro disse que tirou a ex-prefeita Giza do atoleiro, depois com muita dificuldade o Barão Valadares. Quero ver quem será a próxima vítima do Mariano. Ele continua naquela de pensar que seus fiéis eleitores decidem qualquer eleição em Afogados da Ingazeira. Deixa-o pensar assim. O desengano da vista é furar os ói como diz um amigo meu.
Mas vamos ao que interessa porque o ex-deputado já conseguiu o que verdadeiramente queria: derrotar a ex-aliada Giza Simões e preencher seu ego que tava vazio que só lata de leite ninho em casa de gente pobre. O pequeno trabalhador compra o leite em pacote, aquele do mais barato encontrado em qualquer budega. Tem um tal de leite Vaquejada, ô infeliz rui das costa ôca. O cabra bota um pingo de água e quando dissolve o pó do mardito, fica mais fraco do que coice de bacurim. Mas quem não tem cão caça com gato. Deus é tão justo que prmite que a garotada pobre ande de pés no chão, pisando em bosta e germe de toda espécie sem sofrer uma simples gripe. Mas eu já fugi do assunto novamente? Ô cabra vei besta, esquece isso e vai cobrar da Assistência Social, porque muita gente está reclamando o não fornecimento das cestas básicas há alguns meses, enquanto vai ser gasto seiscentos mil reais nesta festa do centenário. Quem é louco ir cobrar isso do barão? O danado agora deu pra ir pra emissora de rádio trocar farpa com o povo. Tá pior do que aqueles lutadores do ringue, desafiando debatedores e dando ibope ao Nill Patinhas e Aldo Vental.
Voltando ao assunto, Waldecy Meneses chamava sempre dois meninos ao palco e dava um prêmio ao que ganhasse à disputa. Ele convidava dois, porém subiam no palco mais de vinte molecotes. Ocorre que um certo dia o saudoso professor gritou de lá: - preciso de dois garotos agora no palco para fazermos uma brincadeira! Correu menino feito a peste pra riba do palco. Foram escolhidos dois meninos, Heleno Mariano e um tal de Vanda.
Waldecy inesperadamente falou no microfone: - Vamos para o desafio. Vamos ver que traz... Deu uma pausa e concluiu: - uma manga madura. Aí Heleno Mariano e Vanda desceram numa carreira desembestada de rua abaixo a procura de um pé de manga. Heleno Mariano esperto como sempre, chamou o Vanda e falou:
- rapaz vamos lá pro Bairro São Francisco lá tem mangueira pra gente pegar manga a vontade. Vanda caiu na conversa do mariano e fez finca pra Rua Nova, enquanto Heleno só fez pular uma muradazinha próximo ao Cine Pajeú, onde hoje é a residência do ex-bancário José balbino. Deu tempo o espertalhão tirar uma manga, chupar outras e esperar o concorrente se aproximar.
Quando Vanda chegou ao lado da igreja, suado a mais de cem quilômetros por hora, Heleno correu emburacou no cinema e entregou a manga a Waldecy. Vanda ficou bravo com Heleno e só não o chamou de santo. Tanta baboseira pra contar uma coisa idiota dessa? Vai te lascar rapaz, faz um blog desse e conta melhor! Ora. Eu fico com a peste com esses cabras críticos. Já basta Jurandir Pires e Celso Brandão pra comer o juízo do povo. Fui!!!!
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quinta-feira, 18 de junho de 2009
O carneiro que Zé Negão ganhou
Uma banca de madeira coberta com um pedaço de plástico, cheio de mosca por riba, uma garrafa de pinga, dois pacotes de cigarros que são vendidos em retalho, uma bacia com bolo de caco, umas cocadas de coco dura feito a gota serena, meia dúzia de garras feitas de Farinha de Trigo Boa Soret, e uma caixa de tubibas, enche os olhos da menineira como diz o folclórico Marconi Edosn. As gatinhas ficam nas beiradas, como quem não quer nada, querendo. Ouvindo música, mascando um chiclete e balançando discretamente o esqueleto, elas fazem a festa, logo o domingo é dia da negada do sítio aproveitar. Tem delas que lasca tanta maquiagem na cara que ficam parecendo aquela personagem do SBT chamada Filó.
Os jogadores, coitados, debaixo do sol ardente correm mais do que notícia ruim atrás da redondinha feito boi bravo depois de uma quatro futucadas de ferrão no espinhaço. O fedor de suvaco só eu sei descrever, outro dia um infeliz passou o suvaco no meu braço durante uma partida de futebol que lavei com quatro água e a fedentina só veio sair horas depois. Os barzinhos da redondeza, ficam lotados de bêbados conversando arisia nos pés de balcão e cuspindo no chão. No outro dia a coitada da muher do dono do bar é quem aguenta as prastadas de catarro no cimento. Mais nada melhor do que um saco de estôpa pra sugar a gorda expelida pelos bebuns, depois de algumas tragadas num cigarro pacaia. Sem alambrado, a situação é mesmo do jeito que a matutada gosta. Um grita daqui, outro dali, uns matuto ignorante que só papel de enrolar prego. Olha as lapa de faca na cintura! Tem delas que parecem a espada do He Man. Por falar em He Man dizem que o mataram em Cabrobó. Deus o ponha em um bom lugar.
Que coisa mais feia, a gente ir pra festas e ficar falando depois? Pois é, tem muitos que vão comer, comer, e adispois lasca a língua nos pobres dos noivos. Eu tenho um primo que é um boba serena pra falar. Uma febe tife dessa não é bom ninguém convidar nem para velório. Vai que o mardito fale que faltou bolacha e café. Homi, vamos ao que interessa. Darésio já reclamou o tamanho dos textos, mas Gilberto Moura questionou e eu não sei o que faço. Agradar a dois senhores não posso, então vou por aqui escrevendo minhas besteiras a minha maneira. Voltando ao torneio do Sítio Vaca Morta, realizado a cerca de quinze dias, o vereador Zé Negão deu um bolo nos espertalhões.
Ah, esqueci de lembrar que já é tradição nesses torneios rifar-se um objeto ou um animal e o lucro ficar para o time da casa. Inventaram de fazer um bingo de um carneiro e venderam centenas de cartelas. Numa bendita mesa, estava Renaldo Lima, Zé Negão, Marconi Edson, Viva dono do Corinthians da Vaca Morta, pessoas da comunidade e de outras localidades. Um rapaz passou vendendo as cartelas, e cada uma dessas pessoas compraram no sentido de ajudar. Ocorre que na hora “H” o vereador Zé Negão foi o sortudo da tarde. Só se ouvia o carro anunciar na voz devastadora de Marconi Edson: - Comunicamos que o ganhador do carneiro foi o vereador Zé Negão que ta ali na mesa tomando uma ceivejinha! Renaldo Lima, esperto que só cachorro de fateira, mandou um camarada pedir ao Zé para doar o animal a comunidade. Não deu outra meu amigo, o cabra foi bater lá na mesa do negão.
Enquanto isso, já haviam articulado Marconi Edson para pedir no microfone o carneiro a Zé Negão. Com o microfone em alto som e uma música chula cachorra da molesta por baixo, Marconi falava: - Zé Negão ganhou o carneiro mas pedimos encarecidamente que ele deixe o bicho pros mininos aqui do sítio, é Zé tu já tem demais.
O desgramado do Marconi botou fogo de todo jeito. Renaldo Lima só espiava do outro lado esperando passar uma rasteira logo no Zé, um mala que joga melhor do que todos os malaquias da cidade. Marconi com a boca torta gritava de lá: - Vamos Zé, decida a comunidade precisa de você, o carneiro tá aqui amarrado no pára-choque do carro de som. E botava o microfone na matraca do carneiro esnobando: - Fala meu fi que você quer ficar na Vaca Morta, fala meu fi, vamos convencer Zé Negão. E o carneiro só fazia berrar no microfone. A galera dava gaitada a vontade.
Pra terminar a conversa e não cansar tanto os ói do leitor, quando viu a coisa esquentando pro lado dele, ou seja, toda comunidade ao lado de Renaldo e Marconi torcendo pela permanência do carneiro, Zé Negão saiu de fininho e cochichou no ouvido de um cabo eleitoral. Todos pensavam que o bicho ia ficar pro time, Marconi fazendo à média e Renaldo de lá levantando o dedão seco dando sinal de positivo. Com poucos minutos, um camarada chegou perto do carro de som e falou ao Marconi Edson: - olha meu amigo, o carneiro Zé Negão mandou me entregar, ele já foi embora e falou que de outra vez dar um prêmio melhor, portanto, dessa vez o bicho vai pra cidade.
Nisso Marconi anunciou que o Zé ia levar o carneiro pra casa e foi uma chiadeira desgraçada. Renaldo mudou logo de cor e Marconi nem se fala porque o bicho já é branco que só uma folha de papel ofício limpinha da silva. Zé Negão que não é besta, marcou uma data pra comer o carneiro junto de seus amigos e correligionários. A rasteira que o Limão pensou que ia dar no Negão está agora nos Causos & Contos. E acabou. - Ô estória sem graça! É de tua conta rapaz? Faz o teu!
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segunda-feira, 8 de junho de 2009
A cantiga de Zé no Dia da Consciência Negra
Estamos de volta com mais um conto depois de ter passado alguns dias ausente de Afogados da Ingazeira. Não custou muito e me veio à cabeça um causo que aconteceu em uma escola na vizinha cidade de Tabira no final de 2008, numa turma de 3ª série.
O dia da Consciência Negra é comemorado no dia 20 de novembro, por ser o dia em que Zumbi dos Palmares, líder do mais emblemático quilombo do país, morreu, em 1695.
O objetivo da homenagem é promover a reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira, como modo de reduzir o racismo e a discriminação. É, mas nem todos sabem disso.
Pois bem, a professora resolveu trabalhar com os alunos o Dia da Consciência Negra, como forma de superar o preconceito e mostrar a desigualdade ainda existente por esse mundo a fora.
O trabalho apresentado individualmente deu no que falar. Vários trabalhos foram apresentados na dita sala. Aplausos não faltavam porque os trabalhos estavam acima da expectativa; a professora coitada já tava rouca de tanto gritar de emoção.
Trabalho vai, trabalho vem. A meninada estava mais animada do que pinto em merda. De repente chega á vez de José Limeira, um garoto pacato lá do Feijão Puro, um bairro existente na cidade.
A professora com as goelas ardendo gritou: - atenção minha gente, vamos ouvir o que tem a falar o coleguinha de vocês sobre o Dia da Consciência Negra, comemorado hoje.
A classe toda parou pra ouvir. Também depois do grito da sofredora, quem bixiga ia mais dar um piu? O menino se viu rodeado de colegas e pensou que ia arrasar com o diabo de uma cantiga, aprendida não sei onde, nem quero saber, diga-se de passagem, ô cantiguinha feia da brucuta!
Depois de muito silêncio, acanhado por ver tantos outros professores, o garoto passou a mão na cara, lambeu os beiço e disse: - eu vou cantar pra vocês uma musiquinha muito bonita que fala sobre os nego. Vocês vão adorar. Ai os colegas gritaram: - canta, canta, canta!
Sem receio nenhum Zé danou o gogó pra riba sem tom e sem rima:
- nego do suvaco fedorento, rela a bunda no cimento, pra ganhar mil e quinhento! E repetiu: - nego do suvaco fedorento, rela a bunda no cimento, pra ganhar mil e quinhento! Foi gargalhada pra todo lado, teve menino que se esparramou pelo chão, feito manga mole.
A professora aperreada freou a cantiga do garoto: - Pára, pára, pára! Que música mais feia menino, onde foi que você aprendeu isso? O menino todo sem jeito respondeu: - perto de casa tem um moleque que todo dia canta, então de tanto ouvir aprendi.
O fato é real e merece ser tratado com muito respeito, pois, ainda nos dias de hoje existem estes ensinamentos em muitos locais onde a Consciência Negra não chegou definitivamente.
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sábado, 6 de junho de 2009
Batendo Orelha – O Guri e o Potro
Nasceu o potrilho, lindo e gordo, filho de égua boa e leiteira, crioula de campo de lei.
O guri era mimoso, dormindo em cama limpa e comendo em mesa farta.
Já de sobreano fizeram uma recolhida grande, sentaram-lhe uns pealos, apertaram-no pelas orelhas e pela cola e a marca em brasa chiou-lhe na picanha.
Andaria nos oito anos quando lhe meteram nas mãos a cartilha das letras e o mestre-régio começou a indicar-lhe as unhas, de palmatoadas.
O potrilho coiceou, na marca. O menino meteu fios de cabelo nos olhos de Santa Luzia...
Em potranco, acompanhava a manada e retouçava com as potrancas, sem mal nenhum.
O rapazinho rezava o terço e brincava de esconder com as meninas... o que custou-lhe uma sapeca de vara de marmeleiro.
Quando o potrilho foi se enfeitando para repontar, o pastor velho meteu-lhe os cascos e mais, a dente, botou-o campo fora: fosse rufiar lá longe!...
O gurizote, já taludo, quis passar-se demais com uma prima...; o tio deu-lhe um chá-de-casca-de-vaca, que saiu cinza e fedeu a rato!...
O potro andava corrido, farejando... Mas nem uma petiça arrastadeira d’água e poronguda achou, para consolo da vida. Té que o caparam.
O mocito, que era pimpão, foi mandado incorporar. Sentaram-lhe a farda no lombo.
Mal sarou da ferida o potro foi pegado: corcoveou, berrou; quebraram-lhe a boca a tirões, dividiram-lhe a barriga com a cincha, quis planchar-se, e lanharam-lhe as virilhas a rebenque e as paletas a roseta de espora. Tiraram-lhe as cócegas... Ficou redomão.
O recruta marcou passo, horas, pra aprender; entrou na forma; agüentou descomposturas; deu umas bofetadas num cabo e gurniu solitária e guarda dobrada, por quinze dias. Cortaram-lhe o cabelo à escovinha e ficou apontado. Era o faxineiro do esquadrão.
Houve uns apuros de precisão... O rocim foi vendido em lote, para o regimento.
Tocou a reunir: era uma ordem de marcha, urgente. O faxineiro recebeu lança, espadão e tercerola.
Quando a cavalhada chegou o primeiro serviço dos sargentos foi assinalar os novos; era simples e ligeiro; um talho de faca na orelha, rachando-a. Bagual assim, virava reiúno.
Quando tocou o bota-sela, o faxineiro estava na porteira, de buçal na mão, esperando a vez. O laçador laçava, chamava a praça e esta enfrenava... e cada um roía o osso que lhe tocava.
- Chê! Enfrena!...
Foi o reiúno que caiu pro recruta.
Aí se juntaram os dois parecidos, o bicho e o homem. E a sorte levou os dois, de parceria, pelo tempo adiante. Curtiram fome, juntos, cada um do seu comer. E sede. E frio. E cansaço, mataduras e manqueiras; cheiros de pólvora e respingos de sangue, barulho de músicas, tronar grosso e pipoquear, nas guerrilhas.
E de saúde, assim, assim... Um teve sarnagem, o outro apanhou muquiranas; se um batia a mutuca, o outro caçava as pulgas.
Quando, no verão, o reiúno pelechava, também o faxineiro deixava de sofrer dor de dentes.
Passados anos, o mancarrão já nem engordava mais, e todo ovado estava. O fiscal do regimento, sem uma palavra de – Deus te pague – mandou vendê-lo em leilão, como um cisco da estrebaria. Um carroceiro comprou-o, por patacão e meio, com as ferraduras.
Passados anos, o praça, aquele, teve baixa, por incapaz, com o bofe em petição de miséria; e saiu da fileira sem mais família e sem saber oficio. Saiu com cinco patacas, de resto do soldo, e sem o capote. Foi então ser carregador de esquina.
O reiúno apanhava do carroceiro, como boi ladrão!
O carregador levava dos fregueses descompostura, de criar bicho!
O reiúno deu em empacar.
O carregador pegou a traguear.
O carroceiro um dia, furioso, meteu o cabo do relho entre as orelhas do empacador e... matou-o.
A policia uma noite prendeu o borrachão, que resistiu entonado; apanhou estouros... e foi para o hospital, golfando sangue; e esticou o molambo.
O engraçado dessa vida é que há gente que se julga muito superior aos reiúnos; e sabe lá quanto reiúno inveja a sorte da gente...
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quinta-feira, 28 de maio de 2009
As muriçocas do soldado Biró
- Oxente, que nome mais feio pra um guerreiro? O pé de bomba respondia numa animação tremenda, o sorriso com os dentes cariados da fumaça proveniente da chupeta do cão, ia de uma orelha a outro. Ah, mas cada um é feliz ao seu modo...
Semanas depois passei a conhecer melhor o faxineiro, que de faxina não sabia nada. Apanhava uma bituca de cigarro e em seguida deixava quinze que fumava. Perto das biatas ele ainda dava uma escarrada que a bicha parecia mais lama de porco em chiqueiro de pobre. Descobri que o danado gostava mesmo da gaiatice, apesar dos milhares de cabelos brancos na cabeça e no bigode, faiado feito taba de pirulito. Quando Biró baixava pra pegar algo no chão deixava aparecer uma mardita cueca, sofrida que nem o Rio Pajeú que recebe diariamente uma tonelada de dejetos através de esgotos, sem levar em consideração o lixo jogado as suas margens. Acho que tá mais do que na hora de Valadares criar uma diretoria de Meio Ambiente, afinal a quem vamos reclamar? Mas deixa o Barão em paz, ele é sangue bom e sabe muito bem o que fazer. Ninguém melhor do que ele no Sertão do Pajeú para se blindar e argumentar... Agora faço com Zé Bozó, mostre!
Sempre que chega um Comandante num Batalhão desses no interior, os policiais ficam apreensivos quanto à forma de gerenciamento. Uns cobram demasiadamente e oferecem poucas condições a praçaiada, outros o fazem de forma diferenciada, ou seja, cobra operacionalidade, mas em contra partida oferecem condições, posso citar como exemplo o atual comandante do 14º Batalhão major Aragão. A tropa inteira gosta do seu trabalho. Certa feita havia se apresentado um novo comandante na OME em tela. O oficial acabara de ter deixado a Capital e nada conhecia no interior. Trouxe consigo aquele sotaque bem recifense e conversava no pátio interno do Batalhão com outro oficial. Preocupado com a dormida à noite o comandante perguntou a um Capitão:
- Aqui no sertão tem pernilongo?
O Capitão respondeu discretamente:
- Sim Coronel, sempre aparece.
Nisso, Biró tava apanhando lixo próximo aos dois oficiais e timbungou na conversa:
- Oxe, Coroné, aqui tem muriçoca feito à peste. Tem delas que a gente pega no achaprão, pra dizer (alçapão), outras a minineira mata de balieira pra comer com feijão no armoço. É cada uma que dar um paimo, outro dia uma me chupou quase dois litros de sangue quando eu estava cochilando no quarto de hora aqui no quartel, fui parar no hospital amarelo que nem catarro de tuberculoso.
Indignado porque o soldado interferiu na conversa, o Coronel falou:
- Soldado reconheça seu lugar, ninguém lhe chamou na conversa, recolha-se a sua insignificância!
Descabriado, Biró olhou para o Comandante e finalizou:
- Pois tá certo coroné, depois que as muriçocas carregarem o senhor com cama e tudo e lhe deixar aqui no pátio, o senhor não diga que foi falta de aviso. Outro dia elas carregaram uma geladeira só porque a bicha tinha um pedaço de figo de boi e vossa excelência sabe que figo cheira a sangue. Até hoje ninguém sabem onde tá a geladeirinha consul que gelava água pra nós. Outro dia um sordado disse que viu-la no aeroporto. Será que as bichas tem força coroné?
Sem saber o que dizer o Comandante olhou pra cá, pra lá e acabou dando uma risada. Já imaginou o camarada ouvir umas abobrinhas dessas e ficar sisudo? Nem o homem mais chato do planeta dos macacos escutava uma coisa dessa sem abrir a lata. Depois de 15 anos o pé inchado veio parar no causos e contos do Itamar França. Biró se reformou como 3º sargento e trabalha de mototaxista em Serra Talhada, na chamada viração da aposentadoria. O fato de fato aconteceu. Fui!!!!
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sábado, 23 de maio de 2009
O aperreio do vereador Renaldo Lima
Um fazia que defendia o povo, ou melhor, o governo, ôpa, o próprio interesse, e o outro fazia que defendia a bancada de oposição. Naquele tempo a Câmara Municipal era casa cheia. O povo fazia questão de comparecer as sessões, afinal tinha Zé Ioni, Renaldo Lima e Ana Maria Santos que não tinha papa na língua e descia a madeira com força em todo mundo.
Mas o tempo passa e as pessoas mudam... Um dia desses perguntei a própria Ana Maria por que mudou da água pro vinho. Ela respondeu que não tem explicação. Aconteceu naturalmente da noite pro dia. Para alguns, a danada perdeu muito em ter se calado. Prova disso é que nunca mais voltou a Casa Monsenhor Arruda Câmara. Mas deixa pra lá, Ana está melhor do que nunca!
Numa sessão daquelas em que o clima estava pra lá de quente, Renaldo Lima estava mais assustado do que um sibito baleado numa gaiola e um peste de um gato querendo rapá-lo no bucho. Os ói do bixiguento estavam em tempo de estourar. A tremedeira tomava conta do pós-comunista, afinal Limão estava no PPS de Augusto Martins. Imagine uma dupla caceteira dessa no Legislativo.
Antes o nosso vice tinha atitude para arrebentar a boca do balão e exerceu muito bem sua função na defesa dos interesses do povo. Foi um dos mais atuantes parlamentares da história política de Afogados da Ingazeira. Não sei por que mudou a postura de uma forma tão radical. Na verdade não sabemos o que aconteceu com Martins. Mas vamos ao que interessa. Que danado eu tenho haver com a vida do nosso amigo?
Durante o pronunciamento de Hamilton Marques a madeira cantou nos lombos da bancada liderada por Martins. Nem bem terminava as palavras do Hamilton e o ex-apresentador do programa “Papo Legal” já tava lá retrucando a altura, pois, conhecemos a inteligência do Fonseca. Renaldo Lima tremia mais do que vara verde e torcia que o Presidente da Casa não lhe concedesse palavra. Mas foi tudo em vão. De repente Erickson Torres, soltou no microfone: - Eu passo a palavra ao vereador Renaldo Lima. Isso sem o mardito pedir.
Num momento inusitado naquele Poder Legislativo, o Limão ficou da cor de um capucho de aigodão como diz o matuto. Olhou para a bancada de situação, olhou para o público presente, bateu no microfone com o bico dos dedos secos que parecem mais um esqueleto e testou: - Alô som, alô som, alô som, alô som, teste, teste, teste, teste, alô som, alô som, alô som e quase que não pára com esta história de alô som. O pior é que deu um branco em Limão e coitado travou como jumento ruim que deita no chão e dar a peste pra sair do canto. Nem um ferrão quente tirava Renaldo do prego naquele momento.
Aí o Presidente da Casa Erickson Torres falou do outro lado: - O nobre vereador quer trocar de microfone?
Assustado qui nem um viado com medo de um leão, Lima respondeu: - Eu agradeço excelência, mas passo o meu tempo de falar para o líder da bancada Augusto Martins.
Assim que concluiu as palavras o Limão tava tão nervoso que deixou o microfone cair. O amassão foi tão grande no dito cujo que este não serviu para nada depois do tal pronunciamento. A cabeça do mangote ficou infincada no chão. Parecia até que o magrelo tava com uma brasa na mão. Todo público presente na Câmara, inclusive os pares do Limão caiu na risada.
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domingo, 17 de maio de 2009
Quem é o pai da criança?
Por Gilberto Moura
Dona Isaura foi batizar a filhinha de um ano e frei Alberto começou o interrogatório:
-Nome?
-Ambrosina.
-Nome da mãe?-
A Isaura que vos fala.
-Pai?- ....
-Ou diz o nome do pai, ou não batizo.
-Seu frei, já que o senhor insiste, lá vai: Frei Cirilo.
-Ôxente, e Frei Cirilo tirou a batina?!
-Não. Segurou com os dentes.
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sexta-feira, 15 de maio de 2009
O Processo do diabo
Escrito por Luis Campos
Isso de que o “diabo” teria sido processado em Flores, faz parte inerente, já da tradição histórica da velha cidade. A noticia , sem qualquer prova autentica, veio sendo transmitida de geração em geração, ao longo dos séculos XIX e XX e renomados historiadores tratam dela. Assim como o ímã ao ferro e o aroma à flor, ligou-se o “processo do diabo” à memória de Flores a tal ponto que não se pode falar de uma sem se referir a outro. O assunto, sem ser lenda, não pode, todavia, freqüentar os salões nobres da história.
Permanece nas antecâmaras da mera tradição histórica da terra. Os autos processos não existem em Flores, não se tem provas de que tenha mesmo existido e nem informações seguras onde estejam. Como nódoa de azeite parece tudo haver começado nos meados do século XIX, quando atuavam na política florense o Ten.- Cel. Nogueira da Paz (liberal) e o Major Manuel Pereira (conservador). Uma versão (Dr. Edilton Santana) fala que uma negra forra, ex-escrava de Manuel Pereira, teria sido encontrada morta, pendurada numa árvore, nos arredores da Vila.
A negra dizia-se fora dada ás prática de bruxarias, habilidades que trouxera da África. A autoridade Policial fez instaurar sindicância para esclarecer o fato. E cada pergunta sua, respondiam os informantes, por uma só voz, que a morte da vítima se dera por “artes do demo, artes do tinhoso”. Outra versão (Dona Maria Stella de Siqueira Campos) dá conta de que o corpo de um homem fora encontrado nas proximidades da Villa, também pendurado por uma corda, no galho de uma árvore.
O assassino não deixara pista. Suspeitos não havia. Tomada as providências policias, instaurado o inquérito, foram ouvidos os vizinhos mais próximos. O processo foi remetido ao juiz do crime. Todas as testemunhas, entretanto, respondiam ao magistrado que a vítima não tinha inimigos. A cada pergunta do juiz, uma resposta evasiva. Ninguém sabia de nada. E quando o juiz perguntava de frente, sobre a autoria do crime, cada testemunha respondia: “só se foi o diabo, Doutor!” E o juiz, certamente convencido do mistério que envolvia o crime, decidiu da o processo uma solução esquisita: condenou o “diabo”, nas penas da lei.
E Flores voltou á sua rotina. Acrescenta Dª Maria Stella, que em 30 de dezembro de 1916, quando o governador Manuel Borba visitou Flores, teria solicitado ao Escrivão do Segundo Cartório, Ladislau Nunes de Souza Barros, que lhe mostrasse a curiosa peça jurídica, tendo sido satisfeita a sua curiosidade. Anos mais tarde, soube-se que o processo havia sido remetido para o Rio de Janeiro, mas disso não ficaria recibo. As filhas do escrivão Ladislau, confirmaram a ocorrência, mas, sem algum museu. Outro boato surgiu de que ele estivesse na Bahia. Enfim, o “processo do diabo”, em Flores, como lá dizia o sertanejo, só sendo coisa do “fute”!
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terça-feira, 12 de maio de 2009
Zé Fidélis e a fossa de Moacir Queiroz
Cidade pequena é a peste pra viver de gambiarra, feito casa de gente pobre naqueles morros no Rio de Janeiro, construídas de tábuas de embalagens de bacalhau. Os casebres fedem mais do que aquelas fateiras que passam trinta dias sem lavar o cedém.
Mas esquece o Rio de Janeiro que aqui também tem casa de taipa que só a gota serena! O tal do bicudo vadeia nas costas das veias quando vão drumi após umas tragadas gostosas num cachimbo rústico e mal lapidado; geralmente comprado em bancos de feira.
Certa feita Zé Wilson do Gelinho foi contratado para limpar uma fossa de Moacir Queiroz Leite, comerciante bastante conhecido na cidade. Se fosse numa cidade grande, o trabalho seria executado por um motorista, dois técnicos de maquinário, profissionais desentupidores, vestidos de forma padronizada, usando macacões, luvas, botas, e tudo mais...
Como aqui tudo é no jeitinho brasileiro, os caras limpam fossas descalços, nus da barriga pra cima e sem nenhuma proteção, desgotam tanques que retêm bostas, recebem esgotos, dejetos, águas servidas e mijo de toda cor, verde, amarelo, cinza e pingado... Ah, mais para eles é uma baita festa. Cada um é feliz com o que tem. Tem gente que mesmo tendo, vive numa tristeza infernal dando coice em todo mundo. É uma infelicidade!
Quando destampou a lage da dita cuja, Gelinho levou logo um supapo no pau da venta que quase caiu de costas com o fedor de bosta do ricaço da época. Logo merda de rico fede mais do que a de pobre, não sei se é porque eles só comem besteira, ou o intestino não trabalha bem como os dos pobres. Menino novinho de roça come até besouro rola bosta e não tem uma dor de barriga, mas menino de rico se levar um pingo de chuva, minha nossa, fica resfriado. Ô frescura!
Dois companheiros auxiliavam Zé Wilson na triste tarefa, Gil Gomes e Zé Fidélis, do Bairro São Brás, o primeiro já falecido, o segundo irmão do finado Nenê Grude, um grande admirador do ex-deputado Antonio Mariano. Gil Gomes timbugou na merda e ficou dentro da fossa enchendo as latas e entregando a Zé Fidélis na parde de cima. Gelinho apenas coordenava os trabalhos e se resguardou a tomar todas, melou o bico, mas bem devagar. Já os seus ajudantes se excederam na branquinha e ficaram chapados. Na vigésima lata de bosta, Zé Fidélis não fazia mais um quatro e começou ficar pra lá e pra cá na beira da fossa, parecia vara de bambu.
Gil Gomes também baleado pela Pitu já tava com a cara toda coberta de merda. Enquanto descascava uns cocos Zé Wilson se descuidou dos ajudantes e entertido no vai e vem da faca, ouviu aquela coisa borbulhando e correu assustado pra ver. Meu amigo, quando chegou à fossa, notou que Zé Fidélis tinha caído de cabeça e tava com os pés pra cima, plantando bananeira, e Gil Gomes estava boiando de focinho pra baixo.
Gelinho se aperreou pulou na piscina e salvou os dois sujeitos que estava com o rabo cheio de cachaça. Pra terminar a história deitou os camaradas no chão de papo pra cima e quando apertou na barriga de Fidélis subiu uma goipada de merda que foi bater na cara da empregada que estava ao lado rindo dos pé inchados. Depois de algumas horas eles retornaram, mas estavam com merda até nos ói. E o pior é que a bicha secou e deu um trabalho desgramado pra tirar. O cabelo de Zé Fidélis ficou mais duro do que o de Dedeu Bola cheia e do pintor Zé Rolinha. Quando ia saindo da casa Gil Gomes foi cobrar o serviço a Zé Wilson aí Zé Fidélis gritou:
- Eita fedor de merda da porra Gil Gomes fecha essa matraca!
Aí Gelinho retrucou:
- cala a boca Fidélis a tua tá fedendo mais do que a dele.
Fidélis que de besta na tem nada, cobrou de Geladinho:
- Então leve a gente lá em Chico Cotó enfermeiro pra ele fazer uma lavagem no estombo da gente!
Esta história é verídica. Zé Wilson do Geladinho já não está mais entre a gente mais deixa esta lembrança para os leitores do Causos & Contos.
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A descoberta do voto de Agnaldo Silva
Escrita por Marenice Oliveira
Como aqui quem manda é o freguês, tome mais um causo escrito e enviado pela minha amiga Marenice Oliveira. Ela é promotora de eventos na região e adora contar causos.
Aguinaldo Silva figura que apresenta todos os sábados o Programa Sábado Livre foi pego de surpresa durante uma entrevista na Rádio Pajeú quando se falava sobre a eleição do Grêmio Estudantil da Escola Padre Carlos Cotat.
Num é que o danado se comprometeu com os dois candidatos que disputavam à direção do Grêmio Estudantil?
Durante a entrevista o radialista Nill Júnior disse no ar:
- afinal você prometeu voto aos dois candidatos Agnaldo?
Ele disse com a maior naturalidade:
- foi Nill, a gente tem que agradar a todos eles, no final nem um nem outro ficou chateado comigo.
Então falei, mas se isso cai na boca de Itamar França vai para o Causos & Contos dele.
Ele ficou tão apreensivo que perguntou:
- será Marenice que isso vai parar no blog do itamar? Será que Nil Júnior quis dizer que sou traíra e ele mesmo ria com essa história toda?
Mas ele garante que não, porque não teve como falar já que o programa estava acabando. Agnaldo disse que tem personalidade e duvida fazer assim na política.
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"LATINORIUM"
Não faz muito tempo o Latim era disciplina obrigatória no ginásio, com aperfeiçoamento para aqueles que seguiam o curso Clássico. Aprendiam todos a declinar a “rosa” e o “qui, quae, quod”. Os mais espertos acompanhavam César na travessia do Rubicão ou chegavam a declamar as catilinárias de Cícero.
No vestibular de Direito, o latim era eliminatório. E muito se exigia, como ainda se faz preciso, no estudo do Direito Romano.
Hoje é língua morta. Talvez a usem os padres na leitura do breviário ou nas visitas a Roma. Não mais em missas, batizados ou qualquer outro ato litúrgico.
Apesar disso, e mesmo sem que ninguém o estude, o Latim continua vivo e de largo uso na linguagem forense, tanto a falada quando a escrita. Sabem-no de ouvido ou por erudita leitura já os estudantes, capricham nele os aplicados estagiários e fartam-se de usá-lo os causídicos militantes, assim como os jurisconsultos e magistrados, abrilhantando seus arrazoados ou decisórios.
Acontece que, por incúria ou natural desconhecimento, cometem-se certas barbaridades no uso da língua. Algumas vezes passam desapercebidas, ou até se disseminam como expressões de alto louvor. Por exemplo, é bastante usada a expressão “data vênia”, em sinal de respeitosa discordância. Mas há quem não se contente, e prefira o superlativo “datíssima vênia”, em inadmissível aportuguesamento do tempo verbal.
Não poucas vezes ocorre confusão do tradutor. Como no caso do recém - formado que, açodadamente, trocou uma petição de “Habeas Corpus” por “Corpus Christi”. Pior ainda a referência ao célebre conclamo de César – “alea jacta est”, que uma famosa causídica afogadense entendeu como “o alho está no jacá” (“sic”).
Mais curiosa e engraçada a inicial de inventários narrando que o “de cujus” deixou uma decuja e dois decujinhos... Se era latinista, o autor da herança deve ter se revirado no túmulo.
Há quem se ofenda, por estranhar os termos da citação. Assim, no colégio ouve o aluno: “Mater tua mala burra est”. De pronto, rebate: “É a sua!”, quando na verdade apenas se disse: “Tua mãe come maças estragadas”.
Muito feio quando se erra na pronúncia. E o risco é grande em face da invasão do inglês. Em sustentação oral, pedindo o adiamento da audiência por estarem as partes em vias de composição, frisou o peticionário que a prorrogação temporal haveria de ser “saine daie”(“sine die”) .
Fato real, bem pitoresco, deu-se na sala de audiência de uma Vara Criminal curitibana. Era um caso de lesão corporal simples, sem testemunhas de acusação, a vítima desaparecida. Como o réu alegará legítima defesa, certamente seria absolvido. Apesar disso o defensor fez questão de ouvir suas três testemunhas. Aconteceu que a terceira, para surpresa geral, disse que tinha presenciado a briga.
E desatou a falar, contando que o réu havia provocado e perseguido a vítima, sem razão plausível, aplicando-lhe imerecido pontapé no traseiro. Então o promotor, comentando a situação desfavorável ao réu, ocasionada pela sua própria defesa, fez uma observação jocosa: “Pois é, dizem que “quod abundat non nocet”(o que abunda não prejudica), mas desta vez o “abundat” prejudicou!”. O advogado entendeu mal a última expressão e lançou indignado protesto ao meritíssimo juiz, em defesa de seu cliente e da própria moralidade da Justiça!
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quinta-feira, 7 de maio de 2009
Nêgo Daniel e o Circo do He Man em Carnaíba
No final dos anos 90 passou em Carnaíba um circo que tinha como principal atração um homem branco, de cabelos cumpridos, apelidado de He Man. Desde que me entendi de gente, nunca vi uma criatura tão forte. Interessante é que ele fazia a abertura de seus árduos trabalhos com um agradecimento ao Deus de Davi, de Jacó e de José. O público ficava boquiaberto com tamanha fé.
A cada dia o espetáculo do pequeno circo era mais atraente aos olhos dos espectadores, isso porque He Man enfrentava vinte homens sozinho e botava todos pra correr a socos e pernadas. Até velho de 80 anos em cadeira de roda ia assistir o lutador descer a lenha em seus obstinados desafiantes. Foi o maior sucesso a passagem do personagem no Sertão do Pajeú.
Durante manhã e tarde o carro de som anunciava pelas ruas de Carnaíba, mais um espetáculo e claro a grande atração da noite. Ao som do microfone de um Opala azul, diga-se de passagem, velho e caindo os tacos, um magricelo de cabelo encaracolado anunciava:
-Não perca logo mais à noite mais um espetáculo do Circo Transamérica. Hoje a cobra vai fumar com a turma do Nêgo Daniel enfrentando o He Man. A madeira vai deitar com a galera do alto Santa Luzia!
Eu estava de serviço próximo ao Banco do Brasil, mesmo no auge do famoso mosquetão, o chamado pau de ferro dos policiais militares, hoje resta somente à lembrança dos coitados, encontrados apenas em museus. O carro rodou o dia inteiro e não deu sossego a população anunciando o Nêgo Daniel como principal desafiante de He Man. Passei a tarde toda imaginando que o desafiante seria um homem robusto, moreno, malhado e acima de tudo caceteiro nas pegadas.
Ah, mais isso estava na imaginação de muita gente. Quando a rumbeira balançou o esqueleto pra galera dar uma salva de vaias, as arquibancadas já estavam repletas, sem espaço nem para Darésio dar um pêido daqueles... O vendedor de pipocas, algodão doce e daquelas maçãs avermelhadas cobertas de mel por cima já tinham enchido o tolé. Não sobrou nenhuma pra contar a história. Eita He Man de um cartaz da bexiga! Parecia Didi da Felicidade quando estava em seus dias de glória. Quando o ex-prefeito contava sua história de vida uma multidão chorava emocionada. Com o tempo veio Anchieta e deu um ultimato no drama.
Mas deixa pra lá que o homem está voltando com a febre tife nos couros e disse que aí de quem enfrentá-lo. O Patriota afirmou que faz seu sucessor folgadamente. Mas Lisboa com sua sapiência contesta... Quando o locutor anunciou a entrada de He Man no ringue, foi aplauso feito à peste, os velhos ficaram inquietos e correram pra frente no intuito de ver a fera de perto. Só que a fera que eles queriam ver era o Nêgo Daniel, propagado nos carros de som durante o dia todo. O apresentador conferiu as cordas do ringue, e quando convidou o negão para o centro do ringue, eu que estava distraído só ouvi as vaias. Os assobios tomaram conta do espaço e confesso que fiquei môco, môco, môco.
O Nêgo Daniel havia subido no ringue. O miserável parecia um grilo falante. Coxo de uma perna, cabelo encaracolado, cambito fino, tatuagens pelos ossos e com estampa de sibito o danado ganhou vaia e assobios feitos à peste. O desgraçado entrou com um cigarro no bico, parecia o cão chupando manga. Quando He Man botou os pés nas tábuas, ou melhor, as pranchas, o ringue balançou feito geléia. Os demais desafiantes também subiram e foi dado o início da luta. Na primeira tacada que tomou no pé das orelhas, Nêgo Daniel quase voou por cima do ringue. Procurou terra nos pés e não encontrou. Correu pra um lado, correu pra outro e He Man atrás, o povo ria a bersa, mas o negão coitado tava assustado feito gato com medo de leão dentro de jaula de circo.
Naquele meio, Nêgo Daniel inventou de emburacar nas brechas para correr, mas os próprios comparsas fecharam os cantos da corda impedindo a fuga dele que era o “cabeça” da turma do Alto. Quando descuidaram um pouquinho ele passou numa brecha a mais de mil com as costas vermelha ardendo que só pimenta malagueta na boca de menino novo. A maloqueirada que ficou para enfrentar o He man abriu dos paus e em menos de dois minutos o espetáculo havia terminado. Só sobrou pra polícia porque a mundiça partiu atrás do dono do circo com a gota serena querendo a devolução do dinheiro. Só se ouvias as ameaças:
-Aquele Nêgo safado vai me pagar, se eu pegá-lo a pisa que vou dar nele vai ser maior do que a do He Man. Quero meu dinheiro de volta, vim ao circo para ver briga e não atleta de cem metros. Se aquele infeliz me aparecer vou quebrá-lo todonho. No outro dia Nêgo Daniel estava no circo com uma chupeta do cão na boca e soltando fumaça na cara dos bestas. Ninguém disse nada com o mardito. Anos depois, Daniel se suicidou. Passou a corda no pescoço e quando o acharam já estava morto. No seu enterro tinha apenas três pessoas. O caixão quase não chega ao Cemitério de Carnaíba. Registrou-se na história da terra da poesia como o enterro que compareceu o menor número de pessoas até os dias de hoje.
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HISTÓRIAS DE UMA ÍNDIA PANKARARU
Por Gilberto Moura
Dos muitos irmãos que tenho, apenas eu, o mais velho e mais andejo teve oportunidade de conviver mais de perto, ainda que por breve tempo,com nossa avó paterna. Antonia Maria da Conceição era índia pankararu da região de Petrolandia, Tacaratu, Jatobá, Caraibeiras, onde hoje se localiza a reserva daquela nação.
Era índia mas não era indolente, tinha uma inquietude que a mantinha sempre ativa, seja na atividade de rendeira de bilros, seja na roça ou na pesca. Naquela época o São Francisco não tinha esse horror de barragens a tolher o caminho dos peixes e das enchentes.
Quando criança, e eu já fui criança, uma ou duas vezes visitei minha avó india em Petrolândia e também a aldeia, onde "Mãe Tonha", como os netos a chamavam, plantava amendoim para fazer paçocas e pés-de-moleque que vendiam nos bodegas da região. Uma dessas visitas coincidiu com a época de plantação do amendoin e quando Mãe Tonha foi plantar seu roçado me levou junto.
Na passagem pelo terreiro da aldeia, nos acompanhou uns quatro ou cinco curumins. Chegando na roça, Mãe Tonha organizou a tarefa: Ela iria na frente abrindo as covas e eu mais os outros meninos, os curumins, iriamos atrás deitando as sementes, fechando as covas e assobiando.
Sim, assobiando!
Segundo minha avó, o amendoin que é plantado ao som de assobios de crianças dá boa safra em qualidade e quantidade já o que é plantado em silêncio não prospera, não desenvolve.
E assim foi, a índia na frente com o enxadeco abrindo as covas e a molecada atrás, caraíba e curumins, assobiando, jogando semente e fechando as covas. De vez em quando Mãe Tonha ralhava:
Vamos assobiar gente!
Não pode parar de jeito nenhum!
Todo mundo assobiando!
Quando terminamos estava todo mundo sem fôlego de tanto assobio. Passaram-se os anos e sempre que eu via amendoim sempre me lembrava da forma correta, segundo minha avó índia, de plantar tal lavoura. Somente no final de sua vida, já beirando os 90 anos é que a india velha me contou o verdadeiro segredo do amendoim. A conversa deu-se em Petrolina onde ela passava uns tempos com minha tia Maria Limeira. Perguntou Mãe Tonha:
- Tu lembra da roça de amendoim em Tacaratu
Respondi:
- Claro que lembro, ajudei a plantar uma vez, assobiando até ficar sem bico!
E emendei:
- Assobiar plantando amendoim garante boa safra mesmo? Tem fundamento isso?
Ela respondeu já sem conter o ar de gozação:
- Se tem "afundamento" não "seio" mas que os "menino" não "come" as "semente", não "come"!
Fiquei sem ação, a história do assobio era para que ninguém comesse as sementes de amendoim, aqueles grãos enormes, que mesmo crus são deliciosos. Deve haver alguma relação com o tal ditado que fala de assobiar e chupar cana.
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segunda-feira, 4 de maio de 2009
O dia que chegou telefonia móvel em Carnaíba
Depois do causo de Carlos Ribeiro que movimentou a cidade de Carnaíba em meado dos anos 90, agora a terra da música volta a esta telinha. A cidade cresceu bastante, transmitindo alegria e receptividade aos visitantes. Estou há mais de 15 anos fazendo parte do efetivo daquele Destacamento de Polícia e por isso faço parte do dia-a-dia daquele município. Lá tem figuras folclóricas, Mita do Rádio, Taioba, César Campos, Imperador, Lurita Professora, etc.
A terra do Dantas viveu um dia movimentado da molesta dos cachorros na última sexta-feira, dia 1º de maio. Foi um corre-corre infeliz, ou melhor, feliz. Arriégua parecia que o mundo ia acabar naquela data. Chega me dar arrepio só em pensar no final dos tempos, imagine um pecador como eu, cheio de causos e contos, um falador da vida alheia, diante do Senhor. Mas ele sabe do nosso coração e acredito piamente na salvação, porque a bíblia diz claramente que basta se arrepender e invocar o nome do Todo Poderoso. Oh Senhor Jesus! O que é que há hem? Que mente mais poluída!
Retornei de férias no dia do trabalho. Fui escalado na Cadeia Pública e depois de trinta dias num mundo de extrema alegria, veio o inevitável tédio... Do estabelecimento prisional, ouviam-se fogos e mais fogos, gritos e mais gritos, e um tráfego de veículos nunca visto antes. Fiquei por algumas horas na parte externa esperando alguma pessoa passar no local para perguntar o que estava ocorrendo. A curiosidade era tamanha que liguei para o Destacamento a fim de saber o que danado tava acontecendo nas ruas, devido à barulheira. Eita coisa ruim é o cabra ser curioso e gostar de saber das coisas, sem ter alguém para informar. Mas são ossos do ofício!
Durante a manhã e à tarde não tive um pingo de sossego. Cabra besta não, respeite os homi! Se não quiser ler desligue o computador. Ah, eu não tenho nada haver com seu baixo astral, você que plantou, colha. Ainda pula um grilo falante desse para atrapalhar. Quem te chamou aqui mardito? Não liga, é um enxerido que está de fora do negócio dando pitaco, parece mais aqueles pirus de mesa de jogo que fica com a boca torta mostrando o jogo para o amigo, “é essa outra carta rapaz”, ô ventríloquo desgraçado, mais isso é o que mais tem nos pés de quem está no poder. Prefeito é a peste pra ter esses tristes no pé. A boca chega vive cheia de prega, pé de galinha, feito a gota serena de tanto o infeliz torcer para fuxicar. Ah, infeliz da costa oca!
A viatura tomou um chá de sumiço realizando rondas na cidade, diga-se de passagem que a locada não tem rádio de comunicação, ou seja, os gatos de botas têm que adivinhar o local da ocorrência, ou antonsse passar em frente ao Destacamento de cinco em cinco minutos, o Dudu tá queimado que só a peste na corporação. Ele deu notebook para os professores e a gente nadicas de nada. Bem que eu preciso de um bicho desses mais cadê o dinheiro... Quem sabe alguém um dia me presentei. Fica na tua rapaz, alguém sim, ou você acha que eu não tenho amizades! Mas vamos ao que interessa que Dudu tem que se preocupar em tirar Jarbas do caminho porque se não o tiro vai sair pela culatra. Por falar nisso o senador disse no programa Frente a Frente do Magno que gosta de mulher e de fazer um bom cuzido. Mas deixa a vida do cabeça branca pra lá.
Na madrugada quem disse que dormi? Fiquei somente escutando a doidera na cidade, era som de apito de menino, fogos de toda espécie, buzinas rua acima, rua abaixo, e da Cadeia escutei a macacada gritando, chegou, chegou, e foi doutor Anchieta que trouxe! Pensei comigo mesmo, acho que é o presidente Lula ou o Papa que está lá em baixo, esses danados nem me avisaram. As calçadas estavam tomadas de gente, teve delas que colocou até o som pra tocar, parecendo o dia 31 quando vai se romper o ano. A essas alturas um soldado, desses sem malícia (bizonho) já havia passado a notícia pra toda sorte de gente que ele conhecia. Na escuridão da Cadeia, no cantar dos grilos e no ronco estrondoso do soldado Almeida, eu aguardava ansioso o barulho do motor de um carro, no objetivo de atravessar no meio e perguntar o que febre tife tava acontecendo na cidade.
Como demorou muito, acordei o praça e fiz finca pra rua numa carreira desgramada em minha jumentinha cor vermelha, ano 98. É da tua conta se a bichinha é surrada? Mas serve, pelo menos não pego carona nos carros de lotação e outros particulares. Meu amigo, minha amiga, como dizem os pastores da Igreja Universal, quando cheguei ao centro da cidade, pensei que era “noite de ano”, com tanta gente. A viatura ia numa carreira do cão com destino a uma ocorrência, quando Zezinha Brás deu um grito da gota serena acenando com a mão. O sordado que estava no volante deu um freio que o rastro dos quatro pneus furaram o calçamento. Aí o cabo Bié assustado perguntou:
- O que foi que aconteceu? Estamos pronto para, em condições de!
Aí foi quando Zezinha falou em tom de alegria e descontração:
- O sinal da Tim já está funcionando menino!!! Já pensasse numa coisa desta, parece fim de mundo mesmo!
Minutos após encontrei a viatura e perguntei aos colegas, rapaz desci numa carreira medonha para saber o que está acontecendo em carnaíba em virtude da movimentação. Aí o Nego Bié falou de dentro do carro:
- Relaxa, num é nada não foi só a inauguração da instalação da antena de telefonia móvel, é porque aqui ainda não chegou coca-cola, e o povo ainda tem aquela cultura de esperar o telefone tocar três vezes para atender, se não num presta!
Nisso voltei a Cadeia Pública de carnaíba para ocupar minha função, vigiar os detentos até as 08h da manhã. Se toda cidade que instalasse esse sistema de telefonia fizesse uma festa do tamanho da que fora feita em Carnaíba, Já sei que ia ser o estopim calango mermo!
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quinta-feira, 30 de abril de 2009
O pêido de Darésio na Boate Marquise
A boate Marquise em meados dos anos 80 foi um verdadeiro sucesso. À noite era casa cheia e entupida, como bucho de menino pobre de periferia quando vê um prato de feijão com farinha e uma colher de óleo de soja por cima. Nas tardes, a minineira como diz Marconi Edson, fazia finca todos cheirando que só a peste, logo a colônia alfazema tava num sucesso da gota serena. Inté as fateiras arrasavam com a verdinha, depois de tratar meio mundo de fato, tomar um banho e derramá-la no corpo.
As gatinhas usavam uma colônia chamada Patchouli; a bicha tinha um cheiro doce que enjoava, não sei como as tristes agüentavam. Lembro que os rapazotes colocavam um litro de coca-cola na mesa e ficavam num rebolado arretado. Darésio ajudava Dionísio da Budega, pai de Alexandre do Celular e de Júnior Prugema. Era um xêlepa desgraçado do homem mais careiro da época. Ah, mas Dionísio gostava dele, mandava buscar água, almoço, café e depositar dinheiro em banco.
Até um gato preto pulguento Darésio dava banho na budega a mando de Dionísio. Pequinha gostava logo o bicho era preguiçoso que só radialista ruim, tipo: me deixa quieto pra num arrumá pobrema como diz Zé Negão e Gonzaga Ferreira. O infeliz trabalhava a semana toda na budega e ainda lavava o carro para o Menundo Alexandre desfilar na rua com um frasco de Cepacol dando injetada a toda hora para resfriar a boca contra o indesejável que atingia as narinas dos filezinhos. Mas compensava porque no sábado à tarde Darésio recebia a mixaria do velho, agora imagine quanto era? O sufiente para comprar 15 chicletes e cinco cajuína. Por isso que o infeliz arrancou logo os dentes. Foi com Dr. Aluísio Arruda. O consultório ficava onde hoje funcina o Zero Grau de Nei Quidute.
Como eu não tinha filé e era liso que bucho de traíra, freqüentava o Bar da Facada, no beco do Mercado Público, o conhecido Bar de Fanfa, que por sinal bateu as botas depois de ter enfrentado um cirrose. Era cada bagaceira no Bar de Fanfa. As negas pareciam acidente de trem e só tomavam Pitu com peixe ou preá torrado num óleo preto da bexiga.
Mas que contador de contos sou eu, que boto até os finados pelo meio? Safadeza rapaz, fica na tua! Seja o que tiver pensando é da tua conta? Aguarde um pouco, peça um minutinho e diga a esse fela que tenha paciência que a estória tá chegando ao final. O cabra vem atazanar mesmo agora. Se for as moriçocas nas pernas, dane um ventilador, se não tiver prestando leve na oficina de João Batista, lá conserta até bola de couro, do jeito que o danado gosta de dinheiro. Assim dizia Martinho Souto que botou ele no ramo.
Eita cabra falador miserável. Mas o nosso assunto é outro, vamos pra trás que na frente tem gente, quer mudar o texto? Então mude homi! Ora, o cabra num ganha nada e ainda é obrigado a receber críticas. Teve uma infeliz de uma leitora que botou no mural aí ao lado que quando leu o texto deu náuseas. Mas eu compreendo...
Em uma noite daquelas Darésio tomou um banho demorado, passou creme pelo corpo, derramou quase um frasco de Piment na cara, escovou a chapa, que o danado não tinha mais os dentes naturais e se danou pra marquise. Chegando lá pediu uma cerveja, e ficou no canto da mesa aguardando dar uma fitada numa garota daquelas que estavam remexendo o esqueleto no salão ao som do “meu ursinho blau blau de brinquedo”. De repente conversou com uma delas e no horário das músicas lentas a convidou para dançar. Bem coladinho, Darésio foi amaciando e deu-lhe uma beiçada. Com uma pastilha Halls na boca o desenrolado conseguiu enganá-la. Poucos minutos depois veio uma vontade triste de dar um pêido. Sustentou a barriga, fez força, torceu o calcanhar e não deixou o mardito sair.
Novamente a barriga pressionou mas ele controlou. O suor frio chega molhou o fucinho. A gatinha até o indagou porque estava suando, mas ele alegou o calor. Fez força, se remexeu até o pescoço e conseguiu manter o furico fechado. Ele me falou que pensou: - mas rapaz logo agora? De nada adiantou tentar fugir das tripas gaiteras. Na segunda música, quando ele pensava que estava bem, até curtia o som cantando baixinho no ouvido da dita cuja: “Meu mel não diga adeus, eu tenho tanto medo”, aí meu amigo ele não mais agüentou e deixou o pêido sair devagarinho, como quem tá comendo um corró torrado cheio de espinha.
Ele se espremeu de um lado pra ver se retia o cherinho de bebê que havia sido evaporado do furico, se espremeu do outro, mas a gatinha começou a sentir pela gola da camisa. O peido entrou de blusa a dentro e saiu quente que só água de pelar porco. A garota tentou se afastar do aloprado, mas ele deu uma gravata na coitada quem nem trinta homens separava. Tinha uma turma dançando próximo, correu e a infiteta da bufa ficou rodando no local. A essa altura sem ter mais alternativa, Darésio falou no ouvido da menina:
- Tais sentindo o mal cheiro, parece que bufaram?
Aí a menina revoltada falou: - é mesmo e bufaram agora na minha cara com outro odor diferente, por favor me solte que eu estou com falta de ar, você parece que comeu lama! Aí Darésio descofiado que só cachorroo de fateira, soltou o piteuzinho no salão com uma vergonha daquelas. O jogador tentou se justificar mas a sofredora deu no pé, não quis nem escutar.
Daquele momento em diante Darésio nunca mais foi na Marquise, porque a gatinha contou o fato as amigas na escola e eu estou relatando nos Causos & Contos. Que sem graça rapaz, tenha vergonha!!!
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quarta-feira, 29 de abril de 2009
O Touro Mimoso, o Fazendeiro e o Americano
Por Gilberto Moura
Nos meus tempos de criança, Afogados e Região era grande produtora de algodão, verdadeiro ouro branco que fez a prosperidade de muitos e a miséria de outros tantos quando sucumbiu à praga do bicudo. Como a região foi colonizada por patas de boi, ou seja, desbravada pela Casa da Torre para a criação extensiva de gado bovino destinado a alimentar os escravos dos engenhos de açúcar do litoral, arraigou-se na região a pecuária bovina, ainda que rudimentar e de pouca produtividade.
Mesmo assim, cheguei a ver e visitar fazendas maravilhosas, geradoras de riquezas e de empregos tanto na lavoura quanto na pecuária e na rudimentar agro-indústria da farinha de mandioca e dos engenhos de melaço e rapadura. Passado quase meio século, posso citar a Fazenda Riacho do Mel de Posidônio Gomes, homem poderoso, pai de deputado, prefeito de Afogados e de Sertânia onde repousam seus restos mortais; cito ainda a fazenda de José Virgínio em Iguaraci que fazia a melhor rapadura da região, a fazenda de Lolô na Serrinha, a dos Rafael em Jabitacá e acima de todas elas, a que mais me impressionava pelo dinamismo e pujança, a fazenda de Anselmo Correio na Queimada Grande. Propriedade maravilhosa, ricamente aparelhada com engenho e casa de farinha, açude, tropa de cavalos de grande qualidade e rebanho bovino dos melhores da região.
Hoje recordo com tristeza, todas sem exceção deixaram de produzir. Viraram casa de campo de algum herdeiro mais esperto ou foram retalhadas e vendidas na bacia das almas a troco de banana. Mas, deixando a tristeza de lado, voltemos ao relato.
Anselmo Correia era um empreendedor, um curioso nato, um autodidata. Daquela figura minúscula fisicamente sempre se podia esperar grandes feitos, a forma como tocava sua fazenda era a prova maior de sua capacidade pessoal. Seu rebanho bovino não se resumia ao gado pé-duro, tão comum no Sertão, descendente ainda do gado português de baixa qualidade com o qual Garcia D'Ávila colonizou a sua sesmaria, era muito melhor, pois Seu Anselmo, já naquela época pensava em melhoramento genético, inseminação artificial e tantas outras técnicas que só viriam a se popularizar a pouco mais de 10 anos.
Na sua fazenda tinha um reprodutor, um touro guzerá meio-sangue, de grande produtividade, chamado Mimoso. Naquele tempo não havia congelamento de sêmem em nitrogênio como hoje, colhia-se o sêmem na hora, fazendo o touro ejacular numa vulva artificial, dividia-se o sêmem em doses menores e aplicava nas vacas ali mesmo. Cada monta de Mimoso rendia de 10 a 15 doses de sêmem de alta qualidade e sempre resultavam em prenhês positiva e bezerros de boa linhagem. Não bastasse tanto, Mimoso era de uma docilidade inacreditável para um animal daquele porte, era portanto, o xodó do velho fazendeiro. Mas, o tempo é o tempo e por conta do tempo, Mimoso foi ficando velho e suas qualidades reprodutivas foram escasseando e para Seu Anselmo aquilo era desesperador. Na época Afogados tinha a filial de uma empresa americana que comprava algodão "in natura", a Boxwell & Cotton Company. Não sei como, mas o certo é que a decadência de Mimoso chegou aos ouvidos de um agrônomo americano que prestava serviços à Boxwell.
Assim é que certo dia esse senhor chegou a fazenda de Anselmo Correia com uma maleta muito bonita, querendo uma meia hora de atenção, segundo ele para resolver o problema do touro Mimoso.
Seu Anselmo era um cavalheiro, recebeu a visita, mandou servir sucos e frutas e se colocou à disposição do americano.
O americano começou a falar com seu carregado mas compreensível sotaque:
- Senhor Anselmo, o que trago para lhe demonstrar, vai resolver a baixa produtividade do seu reprodutor por mais 5 ou 6 anos, ele vai voltar a produzir com a mesma freqüência e quantidade de um touro novo.
Dito isto, abriu a maleta e apresentou a sua maravilha:
- Veja Senhor Anselmo, isto é um ejaculador eletromagnético, a última grande invenção da veterinária americana!
Disse isto exibindo um cilindro de cobre do diâmetro de uma garrafa de refrigerante com uns 60 centímetros de comprimento e ligado por dois fios a um magneto de manivela, semelhante aqueles usados em telefones antigos e que a policia menos esclarecida usava e até usa hoje em dia como instrumento de interrogatório.
E explicou:
- Veja que simplicidade senhor Anselmo, o senhor introduz esta sonda (o cilindro de cobre) no ânus do touro e gira esta manivela, dai ocorre uma descarga elétrica cientificamente calculada no organismo do touro e ele ejacula.
Seu Anselmo ficou contemplando aquela parafernália à sua frente e sem encontrar razoabilidade alguma naquela proposta, indagou:
- O senhor está sugerindo que eu coloque isso no meu touro e ainda dê um choque? O senhor já viu meu touro? Já cortou palma para ele? Já deu água? Já fez um carinho na testa? Já viu os netos de 5 a 6 anos brincando com ele como quem brinca com um gatinho ou um cachorrinho? Já viu um filho do meu touro? Sabe de quantos campeões de exposição ele é pai por esse mundo a fora? Tem idéia de quanto dinheiro ele já me deu? E finalizou:
- Meu amigo, se eu lhe disser onde eu estou com vontade de enfiar esse troço e dar um choque o senhor não acredita! Acredita?
O americano respondeu:
- Senhor Anselmo, eu acredito, até mais ver Seu Anselmo, até mais ver.
O americano nem esperou seu Toreba ir buscá-lo de volta, foi a pé da Queimada Grande até Afogados, e foi ligeiro, "visse"?
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terça-feira, 28 de abril de 2009
A MORTE DE ELILSON GÓES
Elilson Góes é natural de Sertânia e hoje é Secretário de Cultura daquele município, mas teve toda a sua vida uma relação com o rádio interiorano, já passando como radialista e Diretor por várias delas como Itapuama FM, Santa Maria de Monteiro e Transertaneja FM. É um dos grandes amigos que construí nesse mundo da radiodifusão.
Quando passou pela FM afogadense, Elilson foi sem querer protagonista de uma das mais tristes histórias dos mais de 15 anos da emissora: a sua própria morte. Em 1994 a rádio cobria pela segunda vez os Jogos Escolares Regionais, dirigida por Edcarlos Bezerra e tendo no seu quadro Nill Júnior, Wellington Rocha, Elilson Góes e o próprio Edcarlos.
Ocorre que vindo da temida Serra de Teixeira, Elilson sofreu um acidente. A primeira notícia que chegou a emissora em Afogados foi que ele estava em estado gravíssimo. Trocando em miúdos, era só esperar a fatídica hora de anunciar sua morte. Mesmo com uma cobertura tão importante, a equipe da Transertaneja à época não teve dúvidas: começou a tocar apenas músicas fúnebres instrumentais e chamava com flashes do Centro Desportivo.
Nill Júnior e Wellington Rocha não paravam de anunciar em tom de nota de sepultamento: “Estamos aqui anunciando os resultados apenas por compromissos com nossos patrocinadores, mas de coração partido, pois nosso companheiro Elilson está à beira da morte vítima desse acidente. Pedimos a Deus e a todos que orem por ele”. Aquela altura ninguém pedia pela restauração dele e sim por ele. Ou seja, para que Deus o pusesse em bom lugar no céu. Não acreditavam nem que escapasse...
Para o dia seguinte já se esperava que a notícia fosse da hora do sepultamento, local, etc. Dono da rádio, Inocêncio Oliveira já preparava uma nova de pesar. A Direção já solicitara ao governo municipal decreto de luto oficial por três dias. As flores já estavam encomendadas à floricultura. O clima era de tristeza. Da recepcionista à direção, olhos marejados pelo colega que se fora...
Eis que surge o próprio Elilson na porta da emissora bem vivo, apenas com leves escoriações. “Oxe Elilson, tu num tava quase morto?” – perguntaram os profissionais achando se tratar de uma alma se despedindo. “Agora pronto, foi só um susto. Eu não mandei dizer que apesar do susto estava tudo bem?” Nill Júnior – ainda dando seus primeiros passos e totalmente inexperiente - grelou os olhos e disse :” Mas a recepcionista entendeu que o recado era PRA GENTE NÃO TER SUSTO, MAS NÃO TAVA NADA BEM”...
Pronto, lá se foram todos os comunicadores pra o ar anunciar A VOLTA DO MORTO VIVO ELILSON, desfazendo uma das maiores gafes da história da emissora.
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